Gabriel Santana

Colunista
Escritor, aspirante a crítico literário; casado, pai e cristão. Também colabora com o jornal Painel DN com sua coluna ”Meditações de Quixote”, espaço destinado para análises e críticas literárias.

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Eis a maldição dos grandes autores: todo mundo fala, mas ninguém lê...

Eis a maldição dos grandes autores: todo mundo fala, mas ninguém lê. O número de comentadores que rodeia um escritor canônico é assustador. Imaginem alguém como Homero? São mais de dois mil anos de análises, comentários e críticas. Claro, existiu momentos em que se leu mais certos autores e momentos um tanto desérticos. Vejamos, para ficar em um único exemplo: Dante Alighieri não leu Homero.¹

Na história do livro, ou mais especificamente dá leitura. Conhecer um grande autor não era algo tão fácil. Além de não se ter muitas traduções, o livro como conhecemos hoje, é quase filho da modernidade. Mesmo que o papel seja uma criação chinesa, para lá de milenar; sua distribuição em massa só veio depois do século XIV, na pequena revolução criadora de Gutemberg: a imprensa móvel.

Depois disso, ficou muito mais barato ter um livro e logo começou o mercado efervescente das traduções. Hoje, posso ler As Mil e Uma Noites traduzido direto do Árabe; ter várias traduções de Homero, Dante, Milton, Goethe e, inclusive, o próprio Goethe se queixava de poucas traduções de livros chineses na sua época². Imagina ele com um Google? Mas o meu ponto principal é o seguinte, Divino leitor: porquê raios não lemos os grandes textos, mas só comentadores ou obras reduzidas? 

Tenho duas propostas: Primeira, temos muitas editoras, preços, traduções, lançamentos. Isso, o tempo todo e todo tempo. Ou seja, com muitas opções, acabamos que não escolhendo nada. Além disso, temos um grande lançamento que, vai abalar todo o mercado livreiro, quase toda semana. Muito se escreve hoje em dia, mas pouco se lê. E, menos ainda, os clássicos. 

Uma segunda proposta, seria essa relação de negação para com o Cânone. Já que para alguns, essa palavra é sinônimo de opressão. Autores canônicos são considerados difíceis, suas obras são grandes, então há um certo distanciamento natural. Ninguém quer encarar um Guerra e Paz, Dom Quixote, então focam nos lançamentos e nos livros de puro entretenimento. 

Mais do que ler os contemporâneos, precisamos sempre voltar aos clássicos. Já que sem os antigos, não teríamos os novos. Bloom, Steiner, Calvino, Puchner e outros críticos já alertaram sua importância para o imaginário do homem. Quer saber do futuro? Então pergunte a Homero.


¹Odisseia – Homero. Pinguim. Trad. Frederico Lourenço. 

² O Mundo da Escrita: como a literatura transformou a civilização. Martin Puchner. Companhia das Letras. Trad. Pedro Maia Soares.

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