Crise de abastecimento no Rio causa enormes transtornos para a população e mostra inoperância do governo Witzel

O Rio de Janeiro vive uma crise de qualidade da água desde os primeiros dias do ano que não se resolveu totalmente até agora. O prazo dado pelo governador Wilson Witzel para acabar com o problema, 30 de janeiro, se esgotou há tempos. E uma parte da população continua recebendo em suas casas uma água turva e malcheirosa, com gosto de terra e impossível de beber. Embora não haja indícios de danos à saúde, o líquido asqueroso captado no reservatório do Guandu, que atende 70% da população da cidade, obriga as pessoas a gastar dinheiro com o produto engarrafado e causa uma série de transtornos. Há três semanas, por causa da paralisação das operações na estação de tratamento, onde se detectou detergente na água, o abastecimento na cidade foi suspenso e as escolas municipais adiaram a volta às aulas. Alguns dias depois, o presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), Hélio Cabral, foi demitido por Witzel. No outro dia, Cabral saiu de uma audiência pública sobre a crise, na Assembleia Legislativa (Alerj), debaixo de vaias e gritos que pediam a abertura de uma CPI para apurar o caso.

Culpa-se Witzel de ter demorado dez dias para se manifestar sobre o problema — o governador estava de férias na Disney. Cabral também deu sucessivas demonstrações de inoperância. A sujeira na água é causada por uma substância orgânica chamada geosmina, produzida por algas e bactérias, cuja proliferação pode ser evitada com cuidados preventivos ou com um equipamento que a companhia só comprou em meados de janeiro e usa carvão ativado para reter a geosmina no início do tratamento. Alguns técnicos dizem que a companhia deixou de adotar oportunamente um procedimento básico, chamado “descarga”, que poderia ter impedido a contaminação. O Ministério Público do estado instaurou um inquérito civil para investigar a crise e apurar possíveis falhas da Cedae. Também serão avaliados danos materiais e morais causados à população, devido aos gastos extras com água, algo pelo qual pagam na conta, e outros prejuízos. Em uma manifestação de pouco caso com os cidadãos, que têm o direito básico a uma água de qualidade, o ex-presidente da Cedae apareceu se esbaldando no auge da crise, dia 12 de janeiro, dentro de uma piscina em uma festa de luxo em uma cobertura na Barra da Tijuca. Cabral foi substituído no cargo pelo engenheiro Renato Espírito Santo.

Privatização da CEDAE

“A solução do problema só será possível com a privatização da Cedae, pelo menos a distribuição e o esgoto” Wilson Witzel, governador do Rio

A sujeira da água carioca e a incapacidade do governo de resolver o problema serviram para reabilitar a discussão sobre a privatização dos serviços de saneamento na cidade. “A solução do problema só será possível com a privatização da Cedae, pelo menos a distribuição e o esgoto”, disse Witzel, depois de anunciar que R$ 30 bilhões serão investidos no setor nos próximos 20 anos. A transferência dos serviços para a iniciativa privada, porém, enfrenta resistência. A abertura da CPI na Alerj acabou bloqueada porque a deputada do Rosangela Zeidan (PT) retirou seu voto a favor da iniciativa. Segundo ela, a CPI só serve “a quem quer privatizar (a Cedae) a preço de banana”.

Para coroar o festival de trapalhadas de Witzel num setor tão estratégico, pela primeira vez, em 15 anos, a Alerj rejeitou um nome indicado pelo governador para ocupar um cargo de conselheiro por um período de quatro anos na Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico (Agenersa), que, entre outras funções, fiscaliza a Cedae. O motivo foi incapacidade técnica. O indicado por Witzel, o engenheiro elétrico Bernardo Sarreta, atual subsecretário de Energia, Óleo e Gás do governo, não atendeu aos requisitos mínimos de conhecimento e experiência para ocupar o cargo. Na sabatina com os deputados, Sarreta foi questionado sobre a função da Agenersa e os últimos livros de energia e saneamento que havia lido. A primeira pergunta ele respondeu dizendo que “a principal função da agência reguladora é fazer regulação de bens, não diria nos bens, no que o estado é, me confere”. Quanto aos livros, disse que não havia lido nenhum livro específico sobre regulação. “O último livro que eu li não é muito do tema, seria do Sun Tzu, ‘A Arte da Guerra’”, respondeu. O engenheiro também afirmou que nunca havia feito qualquer visita ao Rio Guandu. A mera indicação de Sarreta é mais um sinal da incapacidade de Witzel para lidar com questões básicas da gestão pública. Ainda bem que ele não passou no teste.

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