Cartas e afagos públicos não foram o suficiente para diminuir as diferenças entre EUA e Coreia do Norte durante os anos Trump. Como Joe Biden deve lidar com o arsenal nuclear de Pyongyang?

O presidente dos EUA, Donald Trump, adotou política irreverente para a Coreia do Norte: encontros pessoais entre líderes, cartas e afagos públicos foram trocados no intuito de convencer Pyongyang a desistir de seus arsenais nucleares, em troca da retirada de sanções econômicas.

“A política do Trump foi bastante peculiar, diferente da abordagem de Obama”, afirmou o professor do Instituto de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO, na sigla em russo), Ilia Dyatchkov, à Sputnik Brasil.

Donald Trump e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, encontraram-se duas vezes, “o que nunca tinha ocorrido na história” e trocavam cartas pessoais, que Trump classificou de “cartas de amor”, para tentar aproximar seus países de um acordo.

As trocas de cartas poderiam ser “uma prova de que havia boas relações entre os líderes, mas isso aparentemente não impactou nos resultados das negociações”, acredita o especialista em Coreia do Norte.

Os festejados encontros em Singapura, na zona desmilitarizada entre as Coreias e em Hanói, no Vietnã, celebrados entre 2018 e 2019, “não geraram resultados” e, ao final, EUA e Coreia do Norte “se distanciaram ainda mais”.

“O problema foi não só que os encontros não chegaram a resultados concretos, mas que os norte-coreanos deixaram as negociações com a impressão de que tinham sido enganados”, disse Dyatchkov.

Durante os encontros, “os americanos pediram tudo e não ofereceram nada“, resume o especialista.

“O único legado que temos dessas reuniões foram garantias orais feitas pelas partes de que não iriam tomar medidas provocativas”, lamentou o especialista em Coreia do Norte.

No primeiro encontro entre os líderes Donald Trump e Kim Jong-un, realizado em junho de 2018, em Singapura, a Coreia do Norte se comprometeu a não testar mísseis de longo alcance e dispositivos nucleares.

“Os EUA prometeram não realizar exercícios de larga escala com Seul, o que deixou os sul-coreanos bastante insatisfeitos”, relatou Dyatchkov.

De acordo com o especialista, as partes “observam essas garantias até hoje”, com algumas “trocas esporádicas de acusações sobre violações”.

Apesar do avanço, o segundo encontro dos líderes, realizado em fevereiro de 2019, em Hanói, no Vietnã, terminou sem resultado.

“Na época, não havia ficado claro o motivo pelo qual o encontro [de Hanói] tinha sido um fracasso”, disse Dyatchkov.

O mistério ficou no ar até que o ex-assessor e agora rival de Donald Trump, John Bolton, publicou detalhes sobre o encontro em seu livro de memórias, publicado em junho de 2020.

“Nas memórias, ficou claro que os norte-americanos exigiram [de Pyongyang] o que os norte-coreanos não estavam inclinados a aceitar: abrir mão imediatamente de seu arsenal nuclear”, explica Dyatchkov.

No livro, Bolton conta como a equipe negociadora norte-americana, liderada pelo presidente, Bolton e pessoas como o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, colocou uma proposta praticamente inaceitável para Coreia do Norte em Hanói.

Ao rejeitar a ideia de “construção de confiança”, os norte-americanos exigiram que Pyongyang abrisse mão de seu arsenal nuclear, sem oferecer de antemão a retirada de sanções.

Em 2020, “a pandemia relegou os assuntos nucleares para segundo plano”, e os encontros entre Trump e Kim Jong-un se tornaram um fenômeno do passado.

“Nesse ano, a Coreia do Norte chegou a fazer um teste de mísseis de médio alcance que, em outras ocasiões, teria gerado uma forte reação [em Washington]”, lembrou Dyatchkov.

Em ano de pandemia, o impacto dos lançamentos foi minimizado pela liderança norte-americana, que não considerara os testes como uma violação das garantias de Singapura.

 Coreia do Norte lançou algumas armas pequenas, incomodando alguns de meus assessores, e outras pessoas, mas não a mim. Eu tenho a confiança de que o líder Kim honrará a promessa que fez a mim e eu também ri quando ele chamou o homem-do-pântano Joe Biden de pessoa com QI baixo e outras coisas piores. Talvez isso seja para me mandar um sinal?

Biden: de volta para o futuro

Em 20 de janeiro de 2021, tudo indica que Joe Biden vai assumir a Casa Branca, trazendo o Partido Democrata de volta para a condução da política externa norte-americana.

“A principal expectativa em relação a Biden é que haja um retorno à política implementada pelo Obama, que era conhecida como ‘paciência estratégica'”, disse Dyatchkov.

Essa política “reconhecia existência de um problema nuclear, mas esperava resolvê-lo através da pressão exercida por sanções econômicas”, explicou o especialista.

“Na época, não havia negociações diretas e Washington se recusava a sentar na mesa de negociações com Pyongyang”, lembrou.

No entanto, “a ‘paciência estratégica’ pode, no longo prazo, ter sido um grande fracasso“, opinou Dyatchkov.

Segundo ele, apesar de as sanções econômicas ainda serem muito temidas pela Coreia do Norte, “elas não impactam necessariamente o desenvolvimento do programa nuclear” do país. 

Por isso, durante o mandato de Obama, por exemplo, os “programas nucleares e de mísseis norte-coreanos fizeram grandes avanços”.

A política de Biden para a Coreia do Norte será testada logo em janeiro de 2021, quando Pyongyang realizará uma reunião do Partido Comunista.

“Essas reuniões do partido são normalmente acompanhadas de ações militares”, notou Dyatchkov.

A Coreia do Norte poderá optar por testar alguma de suas novas armas, como o míssil balístico intercontinental que mostrou ao mundo pela primeira vez em outubro deste ano, durante parada militar em Pyongyang.

“A reação norte-americana a esse evento vai nos apontar qual será a abordagem de Biden”, acredita o especialista.

Mas, até janeiro, o mundo fica em compasso de espera sobre como EUA e Coreia do Norte, ambos países nuclearmente armados, vão se relacionar após quatro anos de trocas de cartas infrutíferas.

Em 20 de janeiro, o presidente dos EUA, o republicano Donald Trump, deve encerrar seu mandato de quatro anos na Casa Banca e transferir o poder para seu oponente, Joe Biden, do Partido Democrata. Apesar de ainda não ter poder decisório, Biden já nomeou a próxima equipe de política externa norte-americana e recebe relatórios diários de inteligência e defesa nacional.

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