Antigamente a gente ia na casa um do outro para escutar música, porque disco era uma coisa preciosa demais pra emprestar. O teu amigo comprava um disco novo e te convidava pra ir na casa dele ouvir.

Tirava aquele bolachão preto da capa pelas beiradas com todo o cuidado de não arranhar os sulcos e botava no toca-discos, que só o dono tinha direito de operar; lei não escrita da etiqueta de toca-discos, afinal ninguém queria ser culpado de riscar o disco do amigo, nem de danificar a agulha.

Aí ficavam uns três ou quatro cabeludos sentados no chão ou na beirada da cama, em absoluto silêncio por quarenta ou cinqüenta e poucos minutos a fio, escutando pela primeira vez na vida a mais recente criação da sua banda favorita.

Tendo tempo, ouvíamos outras coisas. Às vezes alguém trazia uns discos de casa para tocar. Naquela época tínhamos muito tempo, isso foi bem antigamente, antes de inventarem o emprego e as esposas, e tempo era tudo o que tínhamos.

Depois a gente ia pra cozinha comer alguma coisa e ficar comentando o que ouviu, comparando com os trabalhos anteriores, outros músicos. Depois um sortudo voltava pra casa com uma fita gravada ali na hora, os outros tinham que esperar durante a semana, conforme o dono do disco lembrasse de gravar a cada vez que ouvia de novo o disco inteiro.

Esse ritual existiu por umas poucas décadas, uma gota no oceano da existência humana, uma consequência do arranjo fortuito de tecnologias e mídias que, pela primeira vez na história, permitiram que alguém que não é um rei pudesse fazer com que uma banda lhe tocasse sua música favorita quantas vezes quisesse por mero capricho.

A cama desarrumada se espalha pela internet inteira, onde qualquer banda de garagem posta material inédito para umas poucas dúzias de fãs que se espalham por vinte e três fusos horários.

Em vez de frequentar lojas de discos e sebos, vasculhamos aplicativos atrás de coisas novas e velhas, que compartilhamos instantaneamente com seus amigos, conhecidos e anônimos.

E aquele ímpeto de querer que o próximo experimente a mesma alegria continua lá. Hoje o equivalente de convidar os amigos para o seu quarto é compartilhar um link, é organizar e manter uma playlist, é aporrinhar sua (web) namorada até que ela finalmente ouça rock gutural mongólico e ter um frisson quando ela mandar um coraçãozinho de volta.

Hoje não somos mais obrigados a comprar um álbum duplo por causa de uma música. Hoje não precisamos mais nos reunir ao redor da fogueira no fim do dia e contar histórias de caçadas de mamute enquanto ouvíamos The Clash ou Pet Shop Boys.

Mas a fogueira ainda está lá, acesa desde que o primeiro troglodita brincou com pedras de faísca perto demais do tornozelo peludo. Suas faíscas correm pela fiação digital que abraça o mundo.

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