O fascismo e o nazismo não são tão diferentes do socialismo como você imagina

Alguns fatos sobre socialismo, fascismo e nazismo que talvez você não tenha aprendido nos livros de história da escola.

”As distinções superficiais de fascismo, bolchevismo, hitlerismo são preocupação de jornalistas e publicitários; o estudante sério vê neles apenas uma idéia básica de uma conversão completa do poder social em poder do Estado’Albert Jay Nock como citado em Our Enemy the State(1935).

Na era moderna, mais especificamente no século XX, poucos movimentos político-ideológicos foram mais mal-compreendidos do que o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão. Os crimes do regime de Benito Mussolini na Itália e do regime de Adolf Hitler na Alemanha são arqui-conhecidos e condenados universalmente, mas o conjunto das ideias que fundamentaram tais movimentos, bem como suas origens intelectuais, são muitas vezes marginalizadas ou sequer mencionadas.

Daí o horror do público quando alguém afirma que, ao contrário de divisão ideológica tradicional, que coloca o fascismo e o nazismo como os extremos opostos do comunismo\socialismo e como movimentos de ”extrema-direita”, o fascismo e o nazismo são alternativas socialistas ao socialismo marxista, e não ideologias anti-socialistas de ”direita”.

Os pontos de convergência entre o fascismo e Mussolini, o nacional-socialismo de Hitler e o comunismo soviético de Lênin e Stálin, são inúmeros que, tirando o rótulo que cada um leva, são praticamente indistinguíveis um dos outros.

A noção de que comunistas e nazi-fascistas se configuram em polos ideológicos opostos é totalmente antagônica aos fatos históricos. Comparando-se, de um lado, as semelhanças e as diferenças entre os movimentos totalitários e, do outro, ideologias de direita como conservadorismo e o liberalismo, há muito mais semelhanças entre os regimes de Mussolini, Hitler e o comunismo soviético em suas respectivas agendas, políticas, influências intelectuais, modelo de Estado e programa econômico, do que com as agendas da grande maioria dos grupos conservadores e liberais. 

Na década de 20-30, as origens e tendências socialistas e revolucionárias do fascismo e do nazismo não eram segredo para historiadores, sociólogos, economistas, jornalistas, filósofos, políticos e diplomatas como Ludwing Von Mises, Friedrich Von Hayek, Élie Halévy, Ivor Thomas, F. A Voigt, Peter Drucker, Eduard Hiemann, Peter Viereck, Eugen Weber, John T. Flynn, Harold Nicolson e tantos outros. 

Mas mesmo que estivessem corretos em diagnosticar o nazi-fascismo como uma variação nacionalista do socialismo, as análises de tais autores foram ofuscados pela avassaladora propaganda comunista, que desde á década de 1920, se empenhava em ocultar as raízes comuns do comunismo soviético e do nazi-fascismo no movimento socialista-proletário internacional, e no lugar, colocá-lo como movimentos ”reacionários” diretamente opostos e inimigos do socialismo, que eram apenas instrumentos do ”grande capital” contra o movimento proletário.

A interpretação marxista oficial do fascismo foi apresentada pela primeira vez por Joseph Stalin em 1924, como descobriu o historiador e biógrafo do ditador comunista georgiano, Isaac Deutscher. A informação está na página 366 do vol. II da biografia de Stalin escrita por Deutscher, que por sua vez encontrou a informação no vol. VI das Obras Completas do ditador, publicadas na edição russa de 1947-8. Stálin anunciava no artigo datado de 1924, dois anos após a Marcha Sobre Roma de Benito Mussolini e seus camisas negras na Itália, que:  

Não é verdade que o fascismo seja apenas uma organização combativa da burguesia(…) O fascismo é a organização combativa da burguesia que se baseia no apoio ativo da social-democracia. Objetivamente, a social-democracia é a ala moderada do fascismo. Não há razão para supor que a organização combativa da burguesia possa alcançar qualquer êxito decisivo(…) sem o apoio ativo da social-democracia. É igualmente infundado pensar que a social-democracia possa alcançar êxito decisivo(…) sem o apoio ativo daquela organização combativa da burguesia. Essas organizações não se contradizem mas se completam. Não são antípodas mas gêmeas(…) O fascismo é o bloco político amorfo dessas duas organizações básicas, um bloco que despontou em plena crise do imperialismo após a guerra, para combater a revolução proletária.” 

Nos anos posteriores, as palavras de Stálin acabaram transformando-se em um mantra entre os partidos comunistas de todo o mundo, tendo sua fraudulenta visão sobre o fascismo tornado-se a interpretação única e oficial entre militantes, propagandistas e intelectuais comunistas do Comintern.

A propaganda comunista consagrou a visão de que o nacional-socialismo e o fascismo estavam em pólos ideológicos ao extremo oposto do socialismo, jogando-os para á ”direita radical” mas na realidade ambos possuíam raízes comuns no movimento socialista-proletário.

A doutrina soviética do fascismo, alardeada aos quatro ventos pelos comunistas, se tornou voz corrente entre a intelligentsia esquerdista nos países ocidentais. Logo, os comunistas passaram a utilizar a palavra fascismo como arma de guerra psicológica, classificando tanto inimigos externos(as democracias liberais), facções esquerdistas rivais(como os trotkystas e sociais-democratas anti-comunistas), tanto ditaduras não-comunistas das décadas de 1920 e 1930 e, por extensão, para se referir até mesmo ao regime nacional-socialista na Alemanha, como ”fascistas”.

A doutrina e interpretação oficial do fascismo pelo Partido Comunista resumia-o a apenas um movimento de caráter ”reacionário” e ”burguês”, fruto da ”decadência do capitalismo” em agonia e um instrumento da ”burguesa capitalista” contra o comunismo e a classe operária. Nada mais longe da realidade. A propaganda criada por Stálin serviu para encobrir as origens esquerdistas e socialistas do fascismo e do nazismo, que ao contrário do que diziam e ainda dizem os comunistas, eram movimentos tão anti-capitalistas e revolucionários em sua época quanto o comunismo soviético.

Nem Hitler e nem Mussolini jamais esconderam suas raízes socialistas e revolucionárias, nem deixaram de defender seus ideias anti-capitalistas quando chegaram ao poder em seus respectivos países. Assim como Stálin, Trotsky e Lênin na Rússia tzarista, Hitler e Mussolini se tornaram famosos e conhecidos por suas atividades e agitações políticas em organizações da esquerda radical.

Mussolini havia sido um revolucionário socialista notório na Itália desde a juventude. Os ideias socialistas foram lhe apresentados por seu pai, Alessandro Mussolini, um proeminente ativista proletário comunista na Itália e também um feroz nacionalista. Seu filho Benito Mussolini acabaria por abraçar ambas as paixões ideológicas do pai: o socialismo e o nacionalismo. Inclusive, o nome de batismo de Mussolini, Benito Amilcare Andrea Mussolini foi lhe dado por seu pai, em homenagem a três notórios líderes socialistas: Benito Juárez, Amilcare Cipriani e Andrea Costa.

Na juventude, Benito Mussolini abraçaria os ideias revolucionários da esquerda radical, tendo tornado-se um notório militante do Partido Socialista Italiano(PSI). Logo depois que chegou na Suíça em 1902, aos 18 anos e procurando trabalho, o jovem Benito Mussolini estava morrendo de fome e sem dinheiro. Tudo o que ele tinha nos bolsos era um medalhão barato de níquel de Karl Marx. 

Após um período de vadiagem, Mussolini encontrou um emprego como pedreiro e organizador sindical na cidade de Lausanne. O jovem Mussolini rapidamente alcançou fama como um agitador entre os trabalhadores migratórios italianos, sendo chamado por um jornal de língua italiana local como “o grande Duce [líder] dos socialistas italianos”. Após seu retorno à Itália, o jovem Benito ingressou nas fileiras do Partido Socialista italiano, começando a editar seu próprio jornal, La Lotta di Classe, uma publicaçãferozmente anticapitalista, antimilitarista e anticatólico. 

Ele levou a sério a afirmação de Marx de que a classe trabalhadora não tem país e se opunha vigorosamente à intervenção militar italiana na Líbia. Preso várias vezes por envolvimento em greves e protestos contra a guerra, ele se tornou um herói esquerdista. Antes de completar 30 anos, Mussolini foi eleito para o Comitê Executivo Nacional do Partido Socialista, e se tornou o editor do jornal diário socialista, “Avanti!”, fundado por ele. 

Em 1913, enquanto ainda era editor da “Avanti!”, Mussolini começou a publicar e editar sua própria revista, “Utopia“, um fórum de discussão controversa entre os socialistas de esquerda. Em junho de 1914, Mussolini participou com entusiasmo, em risco de sua vida e de seus membros, na violenta e conflituosa “semana vermelha”.

Um fato curioso nas biografias de Hitler e Mussolini é que ambos militaram em organizações socialistas na juventude e guardariam suas convicções anti-capitalistas ao longo de toda vida.

Sobre seu tempo de militância dentro da esquerda socialista-marxista italiana, disse o próprio Mussolini: ”Era inevitável que eu me tornasse um ultra socialista, um blanquista, na verdade comunista. Eu carreguei um medalhão com a cabeça de Marx no bolso. Eu acho que eu considerei isso como um tipo de talismã … [Marx] tinha uma profunda inteligência crítica e era, em certo sentido, até mesmo um profeta.(Benito Mussolini, como citado em Talks with Mussolini de Emil Ludwig , Boston, MA, Little, Brown e Company (1933) p. 38. Entrevista entre 23 de março e 4 de abril de 1932, no Palazzo di Venezia, em Roma)  

O momento decisivo para que Mussolini evoluísse do socialismo proletário internacionalista para um socialismo nacionalista, foi a Primeira Guerra Mundial. A Primeira Guerra começou em agosto de 1914, sem envolvimento italiano. A Itália deveria se unir à Grã-Bretanha e à França contra a Alemanha e a Áustria, ou ficar fora da guerra? 

Todos os principais líderes e intelectuais do Partido Socialista, Mussolini entre eles, se opunham à participação italiana, assim como outros revolucionários esquerdistas da Europa também condenavam o conflito como uma guerra ”imperialista”, da qual os proletários e os comunistas não deveriam tomar lado.

Em outubro e novembro de 1914, Mussolini, repentinamente mudou para uma posição pró-guerra. Ele renunciou ao cargo de editor da Avanti!, juntou-se a esquerdistas pró-guerra fora do Partido Socialista, e lançou um novo jornal socialista pró-guerra, Il Popolo d’Italia (Povo da Itália). 

Para a liderança do Partido Socialista, isso foi uma traição e Mussolini foi expulso oficialmente do Partido. A Itália entrou na guerra em maio de 1915 e Mussolini se alistou. Em 1917 ele foi seriamente ferido e hospitalizado, emergindo da guerra o mais popular dos socialistas pró-guerra, um líder sem movimento.

Mas para o que os líderes do Partido Socialista italiano interpretavam como uma ”traição” de Mussolini a seus ideias proletários e comunistas, o próprio justificou sua mudança de postura anti-belicista pré-1914 para totalmente pró-belicista em 1914 não como um ”abandono” de seus ideias socialistas de juventude, mas como um processo de evolução destes ideias, passando ele a enxergar o poder da guerra como combustível e prelúdio para a revolução social.

”Nunca senti que houvesse qualquer conflito entre meus deveres militares e meu socialismo. Por que um bom soldado não deveria ser um lutador na guerra de classes?.– Benito Mussolini.(Como citado em Talks with Mussolini, Emil Ludwig, Boston, MA, Little, Brown e Company (1933), p. 41, entrevista realizada entre 23 de março e 4 de abril de 1932.  

”Desde 1911, quando eu ainda era membro do Partido Socialista, escrevi que o nó górdio de Trento só poderia ser cortado pela espada. Na mesma data, declarei que a guerra é geralmente o prelúdio da revolução. Foi, portanto, fácil para mim, quando a Grande Guerra irrompeu, prever as revoluções russa e alemã. Benito Mussolini, como citado em Talks with Mussolini de Emil Ludwig, Boston, MA, Little, Brown e Company (1933), p. 84, Entrevista realizada entre 23 de março e 4 de abril de 1932. 

‘Não acredite, nem por um momento, que, ao tirar-me o cartão de membro, faça o mesmo com minhas crenças socialistas, nem que me contenha de continuar a trabalhar em favor do socialismo e da revolução.– Benito Mussolini, discurso no encontro do Partido Socialista Italiano em Milão no People’s Theatre em 25 de novembro de 1914. Citação retirada da obra Fascismo Revolucionário de Erik Norling, Lisboa, Finis Mundi Press (2011) p. 88.  

Como muitos dos antigos militantes socialistas mantinham-se ainda confiantes na via internacionalista para o socialismo, permanecendo estes nos Partidos Comunistas da III Internacional, passaram a tratar Mussolini e seu movimento fascista, que apostavam antes na via do socialismo nacionalista, como ”hereges” e ”traidores” do proletariado internacional, enquanto Mussolini e os primeiros militantes e intelectuais fascistas continuaram-se a definir-se como revolucionários anti-capitalistas, mas não mais como marxistas, devido a postura internacionalistas destes.

Como afirmam os historiadores e estudiosos Stanley G. Paine, Zeev Sternhell e A. James Gregor, os maiores e mais importantes especialistas quando se trata defascismo: 

”O fascismo foi criado pela nacionalização de certos setores da esquerda revolucionária, e o papel central em sua orientação conceitual foi desempenhado pelos sindicalistas revolucionários que abraçaram o nacionalismo extremo. Os sindicalistas revolucionários, especialmente na Itália, eram freqüentemente intelectuais ou teóricos que tinham saído da matriz marxista e socialista do partido, mas tinham lutado para transcender limitações ou erros que eles acreditavam ter encontrado no marxismo ortodoxo.– Stanley G. Payne, historiador espanhol e estudioso do fascismo, em Fascismo: Comparación y definición, University of Wisconsin Press (1980) p. 42.  

”A ideologia fascista era uma variedade de socialismo que, embora rejeitasse o marxismo, permaneceu revolucionário. Essa forma de socialismo também era, por definição, anti-liberal e anti-burguesa, e sua oposição ao materialismo histórico tornou-a a aliada natural do nacionalismo radical”Zeev Sternhell em Neither Left nor Right: Fascist ideology in France, Princeton University Press (1996) p. 268.

O fascismo foi uma variante do marxismo clássico, um sistema de crenças que pressionou alguns temas discutidos por Marx e Engels até que eles encontraram expressão na forma de ‘sindicalismo nacional’ que foi para animar o primeiro fascismo.– A. James Gregor, estudioso do fascismo, em Young Mussolini and the intellectual origins of Fascism(1979), pg. 11.

Em 23 de março de 1919, Mussolini junto a outros antigos militantes socialistas italianos que aderiram a ideia de fundir o socialismo ao nacionalismo, fundam o movimento Fasci Italiani di Combattimento, nascido da fusão de dois movimentos que foram os precussores do fascismo na Itália, o Fasci d’Azione Internazionalista do sindicalista socialista italiano Angelo Oliveiro Olivetti, e a Fasci Autonomi d’Azione Rivoluzionaria do próprio Mussolini. Apenas três anos após fundar seu movimento fascista, Mussolini e seus camisas negras, após a famosa marcha sobre Roma, chegam ao poder na Itália em 1922, proclamando então o primeiro regime fascista conhecido.

Já na Alemanha, o jovem Adolf Hitler, após o termino da Primeira Guerra Mundial da qual ele e Mussolini participaram lutando nas trincheiras, passou a envolver-se ativamente com a militância socialista radical, sobretudo no episódio da instauração da República Soviética da Bavária. No livro do simpatizante nazista inglês Douglas Reed, ”Nemesis: The Story of Gregor Strasser”(1940) um episódio pouco enfocado sobre a vida de Hitler no ano de 1918 é revelado em detalhes.

De acordo com o relato do livro, o militante nazista Gregor Strasser e outros nazistas acreditavam que Hitler, enquanto em Munique após o fim da Primeira Guerra em 1918 e a Revolução de Novembro na Alemanha, pelo menos por um período de meses depois que ele saiu do hospital de veteranos de guerra após o fim da guerra, serviu em uma “Unidade Vermelha” controlada pela República Soviética da Baviera. A história também foi contada na biografia de Hitler de autoria do historiador e jornalista alemão Konrad Heiden, ”Hitler: A Biography”(1936) e também no livro do historiador Patrick Delaforce, ‘‘The Archive of Hitler”(2010).

Logo depois do armistício de 11 de novembro de 1918, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, o cabo Adolf Hitler deixou o hospital e retornou a Munique. Lá, ficou fascinado por um jornalista judeu e fanático socialista, Kurt Eisner (1867-1919), que era também crítico teatral da cidade. Kurt Eisner organizou uma revolução que proclamou a Baviera um estado livre da monarquia alemã em 1918. Como membro da 7ª Companhia do 1º Batalhão de Reserva do 2º Regimento de Infantaria da Baviera, Hitler foi nomeado Vertrauensmann (representante). Entre outras funções, ele deveria ajudar o departamento de propaganda do revolucionário Partido Social-Democrata Independente da Alemanha(Unabhängige Sozialdemokratische Partei Deutschlands, USPD).

O político Bávaro do Partido Social-Democrata alemão(Sozialdemokratische Partei Deutschlands-SPD), Erhard Auer alegou que Hitler tinha simpatias pelo SPD durante o inverno e a primavera de 1919, durante a vigência da República soviética da Baviera. Em um artigo de 1923 que escreveu para o jornal social-democrata Münchener Post, Auer afirmou que Hitler, devido a suas crenças, era considerado um socialista majoritário(Mehrheitssozialist) nos círculos do Departamento de Propaganda do SPD e afirmou ser um, como tantos outros. A história é contada no livro do historiador alemão Thomas Weber, Becoming Hitler: The Making of a Nazi, Basic Books, 2017( ver página 65). 

Em 13 de abril de 1919, os soldados dos conselhos de Munique realizaram uma eleição para assegurar que sua guarnição se mantivesse leal à nova república comunista da Bavieira. Como vice-presidente do batalhão, de acordo com os livros de Reed, Heiden, Delaforce e Weber, o cabo Hitler era um dos defensores da república socialista da Bavieira durante sua breve existência, e muitos de seus amigos também apoiavam a instauração.   

Em 3 de maio de 1919, a revolução foi massacrada e dissipada, e seus líderes presos ou executados, incluindo Eisner. No filme sobrevivente registrando o funeral de Eisner, vemos Hitler com alguns homens de sua unidade andando atrás do caixão de Eisner no cortejo fúnebre do líder da República bávara soviética. Nós vemos claramente Hitler usando duas braçadeiras: uma faixa preta para lamentar a morte de Eisner e a outra uma braçadeira vermelha na cor da revolução socialista.   

”Quaisquer que fossem seus pensamentos e intenções, Hitler agora deveria servir como representante de sua unidade dentro do novo regime soviético. Por sua disposição de concorrer ao cargo de Bataillons-Rat, ele se tornara uma peça ainda mais significativa na máquina do socialismo do que antes. As ações de Hitler ajudaram a sustentar a república soviética.(Como citado em Becoming Hitler: The Making of a Nazi, Thomas Weber, pg 49-50)

Em 1919, passado o fervor revolucionário na Alemanha, Hitler passa a envolver-se com as atividades políticas e participar de reuniões e comícios do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (futuro Partido Nazista), fundado pelos radicais socialistas e anti-semitas Anton Drexler e Karl Harrer em 5 de janeiro de 1919.

Em pouco tempo, devido a sua retórica inflamada e carisma, Hitler começa a reunir um pequeno grupo de seguidores fanáticos e atrair mais militantes para o recém fundado Partido Nacional-Socialista da Alemanha. No ano de 1921 Hitler torna-se líder do Partido executa uma tentativa frustrada de golpe em 1923, episódio que ficou conhecido como pusch da cervejaria. No tempo em que passou na prisão pela frustrada tentativa golpista, Hitler escreveu seu mais famoso livro ”Mein Kampf”(Minha Luta), uma espécie de manifesto nazista onde esboçava suas teses anti-semitas, nacionalistas e socialistas.

Assim que deixou a prisão, Hitler passou a reagrupar seus seguidores sob a bandeira do nacional-socialismo, atraindo para as fileiras do movimento fanáticos anti-semitas e anti-capitalistas, como Ernst Röhm, Henrich Himmler, Adolf Eichmann e Joseph Goebbels(este último um socialista e anti-semita tão fanático quanto Hitler) que almejavam a destruição da ordem vigente na Alemanha por uma revolução que fosse profundamente nacionalista mas também socialista.

Assim como Mussolini, Hitler também passou a se definir como um socialista, mas um socialista com verniz nacionalista, daí seu repúdio ao socialismo marxista, que pregava o internacionalismo proletário e repudiava ou considerava obsoleta qualquer forma de patriotismo, e no lugar do marxismo propunha seu nacional-socialismo alemão, que considerava a autêntica forma de socialismo por não rejeitar o nacionalismo.  

Abandonando a militância em movimentos da esquerda-socialista, Mussolini e Hitler viriam a organizar novos movimentos políticos anti-capitalistas e revolucionários: o fascismo e o nacional-socialismo.

As origens e a vocação socialista do nazismo foram notadas em sua época até mesmo por socialistas e marxistas como Eduard Heimann e Willy Brandt, o primeiro um dos mais eminentes teóricos do socialismo na Alemanha em sua época e o segundo o líder dos social-democratas alemãs na década de 30-40, membro da resistência anti-nazista durante a guerra e ex-chanceler da Alemanha Ocidental:

Eduard Heimann:”O hitlerismo proclama-se tanto democracia autêntica quanto socialismo autêntico, e a terrível verdade é que, de certa forma, suas pretensões são verídicas – apenas num grau infinitesimal, sem dúvida, mas de qualquer modo suficiente para servir de base a essas fantásticas distorções. O hitlerismo chega mesmo a se definir o protetor do cristianismo, e o mais terrível é que esse grosseiro equivoco consegue ainda causar alguma impressão. Mas um fato se destaca com perfeita clareza em toda essa confusão: Hitler jamais pretendeu representar o verdadeiro liberalismo. O liberalismo tem a honra de ser a doutrina mais odiada por Hitler.(Como citado em Liberal Fascism, Jonah Goldberg)

Willy Brandt: ”Devemos reconhecer o elemento socialista no nacional-socialismo e no pensamento de seus seguidores, sua base revolucionária subjetiva.(Discurso de Willy Brandt em 1932, como citado em ”All totalitarian ideologies are collectivist”, Daniel Hannan) 

O leitor deve estar se perguntando agora: ”Se os fascistas e nazistas eram socialistas e anti-capitalistas como os comunistas, por que os primeiros se voltaram contra os últimos”? A resposta é simples: o fator da nação e do nacionalismo.

Os comunistas, desde a fundação da I Internacional em 1864, calcavam seu socialismo no chamado ”internacionalismo proletário”, ou seja, a ideia de que a revolução socialista só triunfaria se fosse internacional e de que a solidariedade do proletariado deveria superar fronteiras nacionais. O proletariado, dizia Marx, ”não tem pátria”.

Os trabalhadores não teriam então nenhum motivo para ter fidelidade á seus respectivos estados nacionais, devendo lutar apenas em prol da revolução internacional, não deixando-se contagiar por sentimentos patrióticos nacionalistas. Essa noção permaneceu dominante dentro do movimento esquerdista internacional por décadas até a I Guerra Mundial. Com o advento do conflito mundial em 1914, muitos revolucionários socialistas da II Internacional, reiteraram a defesa do internacionalismo proletário, afirmando que o proletariado não deveria aderir ao conflito e nem lutar nas trincheiras da guerra, mas lutar pela revolução comunista internacional e contra a guerra ”imperialista”. Essa foi a posição de Lênin e outros revolucionários na Conferência Socialista de Zimmerwald em 1915.

Mas o que outros revolucionários socialistas perceberam, foi que os trabalhadores preferiram antes lutar por seus estados nacionais demonstrando grande patriotismo, do que lutar pela causa comunista internacional. A força do nacionalismo e da nação parecia superar a ”solidariedade” internacionalista do proletariado. Foi aí então que uma ala do movimento revolucionário socialista internacional, abandonando a ideia do internacionalismo, passou a enxergar a possibilidade de fundir a ideia socialista com a ideia nacionalista, acreditando que esta era um combustível de mobilização muito mais forte do que o internacionalismo proletário, que havia se mostrado uma grande ilusão. Foi dessa síntese que surgira o fascismo e o nacional-socialismo.

A distinção primordial entre o socialismo de Hitler e Mussolini para o socialismo de Marx até Lênin, é que estes viam o nacionalismo como uma força ”reacionária” e antagônica ao socialismo, que o proletariado ”não tinha pátria” e que devia repudiar o nacionalismo, enquanto Hitler e Mussolini acreditavam que o socialismo e o nacionalismo não eram de modo algum antagônicos, mas sim complementares.   

Adolf Hitler: ”Nós escolhemos nos chamar de Nacional Socialistas. Nós não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o cumprimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na raça e solidariedade. Para nós, estado e raça são um.” (Como citado na entrevista de Hitler ao jornal The Guardian editada pelo escritor e poeta alemão George Sylvester datada de 1923)

Benito Mussolini: ”Declaramos guerra contra o socialismo, não porque é o socialismo, mas porque se opõe ao nacionalismo. … Pretendemos ser uma minoria activa, atrair o proletariado para longe do partido oficialista socialista. Mas se a classe média pensa que vamos ser seus pára-raios, eles estão enganados.-(Como citado por Stanislao G. Pugliese em Fascism, Antifascism and Resistence in Italy: 1919 to present, Oxford, Inglaterra, Reino Unido, Rowman & Littlefield Publishers, Inc., 2004, p. 43. Discurso de Mussolini em Milão, 23 de março de 1919)

Na realidade, tal ideia de fundir ambas as forças, não foi anunciada pela primeira vez nem por Mussolini ou por Hitler. Desde finais da década de 1890, muitos intelectuais e líderes socialistas da Europa passaram a abraçar tal ideia com entusiasmo. A ideia de inserir o proletariado na nação, graças a uma política de nacionalismo social, fora já gerada décadas antes na França pelos socialistas Édouard Drumont e Maurice Barrès. 

Em 1892 Drumont cunhou o termo ”nacional-socialismo”, indicando a vocação ”social” e ”anti-capitalista” do novo nacionalismo e a junção do socialismo-proletário com a ideia de nação. Já Maurice Barrès definiu-se como ”socialista nacionalista” quando apresentou a sua candidatura à Câmara dos Deputados em 1900. ”Nunca tenho receio de insistir na união da ideia socialista e da ideia nacionalista”, escreveu Barrès numa obra publicada em 1902. A ideia do ”nacional-socialismo” ou ”socialismo nacionalista” recebeu posteriormente um desenvolvimento intelectual pelas mãos de vários teóricos, os mais notáveis o nacionalista italiano Enrico Corradini e do marxista alemão Werner Sombart. 

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A influência do pensamento do político e intelectual nacionalista italiano, Enrico Corradini foi decisiva para o arcabouço intelectual do fascismo italiano. 

Entre 1908 e 1910, Corradini apresentou a idéia de ”nação proletária” e usava o termo para referir-se a Itália. Corradini afirmava que existiam nações que estavam numa situação de inferioridade relativamente a outras, tal como há classes que estão numa situação de inferioridade relativamente a outras classes. Haviam então nações ”imperialistas” e ”plutocráticas” que subjugavam outras nações, as condenando a situação de párias internacionais. A luta anti-capitalista deveria ser então transmutada também entre luta entre as nações ”proletárias”(a qual ele incluía a Itália) e as nações ”plutocráticas”(no caso as a nações capitalistas do primeiro mundo). 

A teoria de Corradini constitui a primeira tentativa de empregar as forças que influem na luta de classes para promover um socialismo imperialista, como analisou o jurista alemão e estudioso do fascismo e do nacional-socialismo Franz Neumann. As ideias de Corradini seriam abraçadas entusiasticamente por Mussolini e os intelectuais e militantes fascistas italianos e em 1923 a organização fundada por Corradini, a Associazione Italiana Nazionalista (Associação Italiana Nacionalista), se fundiria ao Partido Nacional Fascista da Itália.

Já na Alemanha, no em finais do século XIX e após 1914 mais profundamente, a conexão entre o socialismo e o nacionalismo se intensificou, passando de ideia e teoria para um prática já no início da década de 20 com a constituição do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães em 1919. 

As origens intelectuais do Nacional-Socialismo alemão podem ser encontradas nas obras de Johann Gottlieb Fichte, Johann Karl Rodbertus, Ferdinand Lassalle, Johan Plenge e Werner Sombart, que ajudaram a difundir aquilo que o economista austríaco Ludwing Von Mises chamou de ”socialismo alemão”.

Tais pensadores, defensores francos de um “socialismo de Estado”, surgiram pouco antes de Marx. Johann Karl Rodbertus, como Marx, rejeitou o sistema capitalista como ”exploratório” e foi dos desenvolvedores da teoria da ”mais-valia” capitalista junto a Marx. Rodbertus foi o primeiro pensador socialista a defender o controle da produção e da distribuição e, para isso, os socialistas deviam usar o Estado. O maior expositor de suas idéias foi Ferdinand Lassalle, que inclusive havia sido um dos colaboradores próximos de Marx. 

A partir de 1914, surgiram das fileiras do socialismo marxista, intelectuais e professores que abraçaram a ideia de fundir o socialismo ao nacionalismo alemão, e trouxeram o operário trabalhador e a juventude idealista para o grupo nacional-socialista. Entre estes intelectuais estavam figuras como os marxistas e professores Werner Sombart e Johann Plenge. Foi com este arcabouço intelectual desenvolvido por estes marxistas, que a maré do socialismo nacionalista alcançou grande importância e rapidamente se transformou posteriormente no nacional-socialismo na Alemanha, que na década de 20 ganharia sua maturidade política para alcançar o poder em 1933, com a subida de Hitler ao poder.

Sombart e Plenge eram notórios pensadores acadêmicos marxistas na Alemanha, no início do século XX, e eram reconhecidos como importantes autoridades no estudo das idéias e obras de Karl Marx. O que os diferenciou do restante dos teóricos marxistas de seu tempo é a revisão nacionalista que fizeram da teoria socialista-marxista.

Com o passar do tempo, ambos abandonaram a ortodoxia do internacionalismo proletário do marxismo clássico, e passaram a defender um socialismo nacionalista, ou como passaram á chamar, ”socialismo alemão”. Este socialismo nacional(Nationalsozialismus) deveria atender ao ”bem-estar” da comunidade do povo(Volksgemeinschaft), substituindo a economia capitalista baseada na propriedade privada por uma economia controlada e planejada pelo Estado.

Uma visão comum á ambos era a glória da guerra e, especificamente, no papel global do povo alemão como soldados ideais na revolução socialista. Em suas obras, pode-se encontrar a crença de que uma “guerra alemã” entre a sociedade capitalista inglesa, que representava valores mercantis e individualistas(”burgueses” no jargão marxista) e a cultura guerreira alemã calcada no heroísmo. A derrota da última era considerada por eles como vital para o progresso do mundo. 

Outra tese presente em Sombart, e que depois seria copiada por Hitler e o Partido Nacional-Socialista, é o anti-semitismo feroz, associando ele os judeus ao espírito ”mercantil” e ”capitalista’‘, a antítese do que ele afirmava ser o espírito alemão.

Como observou o economista austríaco Friedrich Von Hayek e o comentarista político americano Jonah Goldberg acerca das origens intelectuais socialistas do nazismo na Alemanha: 

”A conexão entre socialismo e nacionalismo na Alemanha estava próxima desde o começo. É significativo que os ancestrais mais importantes do Nacional-Socialismo-Fichte, Rodbertus e Lassalle- sejam, ao mesmo tempo, pais do socialismo. A partir de 1914, surgiram das fileiras do socialismo marxista um professor após o outro que levou, não os conservadores e reacionários, mas o operário trabalhador e a juventude idealista para o grupo nacional-socialista. Foi somente a partir daí que a maré do socialismo nacionalista alcançou grande importância e rapidamente se transformou na doutrina hitleriana”.(Como citado em The Road of Serfdom de Friedrich Von Hayek)

A noção, bem plantada no evangelho marxista, de que o fascismo ou o nazismo eram os braços armados da reação capitalista caiu junto com o Muro de Berlim. (…) Os nazistas subiram ao poder explorando uma retórica anticapitalista na qual indiscutivelmente acreditavam. Além disso, o nazismo também enfatizava muitos dos temas ‘progressistas’ em outros lugares e épocas: a primazia da raça, a rejeição do racionalismo, uma ênfase no orgânico e holístico – que incluía ambientalismo, alimentos saudáveis e exercícios – e, mais que tudo, a necessidade de ‘transcender’ noções de classe. Por esses motivos, Hitler merece ser firmemente posto na esquerda porque, antes de mais nada, e acima de tudo, ele era um revolucionário.(Como citado em Liberal Fascism de Jonah Goldberg)

Voltando a Hitler e Mussolini, as convicções e posturas socialistas de ambos não ficaram restritas apenas a seus anos de jovem militância em organizações esquerdistas radicais. Ao chegarem ao poder, tanto o Duce italiano quanto o Füher alemão levaram a prática um coletivismo estatal feroz na economia de seus respectivos países, nacionalizando e estatizando amplos setores da economia, substituindo a economia de mercado liberal-capitalista, que julgavam ineficiente, irracional, anárquica e geradora de profundas ”desigualdades sociais”, por um modelo de economia centralmente controlada com mãos de ferro pelo Estado.

Organizando seus movimentos em seus respectivos países, Mussolini e Hitler copiaram modelo de ação política que os bolcheviques de Lênin estavam usando na Rússia Tzarista antes e depois de chegar ao poder. Uma série de características do bolchevismo e do nazi-fascismo mostram semelhanças impressionantes, incluindo a sua ação revolucionária e teorias da nação proletária, princípios de liderança, ditadura de partido único, exércitos partidários e militância armada organizada.   

A Rússia Comunista, organizada sob os princípios bolcheviques de Lênin e nas teses de Marx, constitui-se desde o começo como um Estado totalitário, o primeiro exemplo de tal regime no século XX e infelizmente não o último. Assumindo o poder, Lênin rapidamente criou um imenso e eficiente estado policial, criado para assegurar, segundo ele, o poder da ”classe trabalhadora”, a qual os comunistas consideravam ”um pilar” da vindoura sociedade comunista, e a ”burguesia capitalista” junto com a aristocracia russa tradicional, classes ”inimigas” condenadas a desparecer. E como estas classes ”reacionárias” deveriam desaparecer? A resposta era simples: pelo terror revolucionário.

Os fascistas italianos e nacional-socialistas alemães adotariam fielmente os princípios de organização política e modelo de Estado totalitário de partido único dos bolcheviques russos, tendo fascistas, nazistas e comunistas fascinação pelo terror e violência política, campos de concentração, extermínio em massa, ditadura do pensamento único, política política, culto ao líder, coletivismo estatal, etc. 

Notando as semelhanças entre ambos os regimes, e o débito dos fascistas e nazistas para com os bolcheviques russos, disse o teórico marxista alemão Otto Rühle:

”É preciso colocar a Rússia na primeira linha dos novos Estados totalitários. Ela foi a primeira a adotar o novo princípio de Estado. Foi ela que levou mais longe a sua aplicação. Foi a primeira a estabelecer uma ditadura constitucional, com o sistema de terror político e administrativo que o acompanha. Adotando todas as características do Estado totalitário, tornou-se assim o modelo para todos os países constrangidos a renunciar ao sistema democrático para se voltarem para a ditadura. A Rússia serviu de exemplo ao fascismo. Não se trata absolutamente de um acidente nem de uma brincadeira de mau gosto da história. A semelhança de sistemas, longe de ser apenas aparente, é aqui real. Tudo mostra que enfrentamos expressões e consequências de princípios idênticos aplicados a níveis diferentes de desenvolvimento histórico e político. Que isso agrade ou não aos partidos “comunistas”, o facto é que o Estado, como a maneira de governar na Rússia, em nada difere da Itália e da Alemanha. Eles são fundamentalmente semelhantes. Pode-se falar de um “Estado soviético” vermelho, negro ou castanho, assim como de um fascismo vermelho, negro ou castanho.(Como citado em ”A Luta Contra o Fascismo Começa Pela Luta Contra o Bolchevismo”, Living Marxism, Vol. 4, n.º 8 – Setembro de 1939, Otto Rühle)

As semelhanças entre o bolchevismo-leninista russo, o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão já eram notadas na década de 20-30 por observadores e eram assumidas pelos próprios líderes fascistas e nazistas. Hitler e Mussolini nunca esconderam suas admirações pelo bolchevismo, nem deixaram de reconhecê-lo como uma inspiração e falar das afinidades ideológicas entre o comunismo soviético e seus regimes.

Adolf Hitler: ”Não é a Alemanha que se tornará bolchevique, mas o bolchevismo, que se tornará uma espécie de nacional-socialismo. Além disso, há mais que nos liga ao bolchevismo do que nos separa dele. Eu sempre levei em conta essa circunstância e dei ordens para que ex-comunistas fossem admitidos ao partido de uma só vez. O social-democrata pequeno- burguês e o chefe sindical nunca farão um nacional-socialista, mas o comunista sempre… O nosso espírito é tão forte, e o poder do nosso magnífico movimento para transformar almas tão elementares, que os homens são remodelado contra a sua vontade … Uma revolução social me emprestaria poderes novos e insuspeitados. Não temo a permeação pela propaganda comunista revolucionária.(Declaração de Hitler citada em The Voice of Destruction: Conversation with Hitler, de Hermann Rauschning, 1940)

Benito Mussolini: ‘Amanhã, os fascistas e os comunistas, ambos perseguidos pela polícia, podem chegar a um acordo, afundando suas diferenças até chegar a hora de compartilhar os espólios. Percebo que, embora não haja afinidades políticas entre nós, há muitas afinidades intelectuais. Como eles, acreditamos na necessidade de um estado centralizado e unitário, impondo uma disciplina férrea a todos, mas com a diferença de que eles chegam a essa conclusão através da idéia de classe, nós através da idéia da nação.(Declaração de Mussolini como citado em The Myth of the Nation and the Vision of Revolution deJacob Talmon, University of California Press, 1981)

O próprio Joseph Goebbels, famigerado ministro da propaganda do III Reich, em um discurso em 1925, chegou a elogiar entusiasticamente ninguém menos que o próprio Lênin, afirmando que este era um ”grande líder”, só sendo superado pelo próprio Hitler, e de que a diferença entre o comunismo e o nacionalismo-socialismo de Hitler era muito pequena. O discurso de Goebbels chegou a ser noticiado pelo jornal The New York Times na época. Na Itália, Mussolini e seus aliados, não poucas vezes fizeram alusões as semelhanças e afinidades ideológicas entre o comunismo soviético e o fascismo italiano, ressaltando o repúdio de ambos ao liberalismo e as democracias liberais-capitalistas. 

Benito Mussolini: ”Em toda a parte negativa, somos iguais. Nós e os russos somos contra os liberais, contra os democratas, contra o parlamento.(Benito Mussolini como citado em Russia Under The Bolshevik Regim deRichard Pipes, Nova York: NY, Vintage Books, 1995, p. 252, e em Yvon de Begnac, Palácio Venezia: Storia di un Regime, Roma, 1950, p. 361.) 

Joseph Goebbels: ”Lenin é o maior homem, perdendo apenas para Hitler, e que a diferença entre o comunismo e a fé de Hitler é muito pequena.”(Discurso de Goebbels de 27 de novembro de 1925, publicado pelo The New York Times,”Hitlerite Riot in Berlin: Beer Glasses Fly When Speaker Compares Hitler to Lenin”)

Além do repúdio as democracias liberais(condenada por ambos como ”reacionárias”), os fascistas e nazistas compartilhavam com os comunistas um ethos ferozmente anti-capitalista, anti-liberal, coletivista e revolucionário.

Ao contrário do que é dito muitas vezes(principalmente em livros de história), os fascistas e nazistas nunca representaram qualquer tipo de capitalismo, nem ambicionavam preservar o sistema de propriedade privada capitalista. Muito pelo contrário: eram profundamente anti-capitalistas e anti-liberais e buscavam substituir a economia de mercado capitalista por uma economia estatizada e rigidamente dirigida pelo Estado.

Como disse o sociólogo e cientista político Eugen Weber em Varieties of Fascism(1964): ”Se há uma coisa em que todos os fascistas e nacional-socialistas concordam, foi sua hostilidade ao capitalismo.

Com a maturidade de seus movimentos políticos e chegando ao poder em seus respectivos países, Mussolini e Hitler impuseram suas agendas totalitárias e anti-capitalistas, aproximando-se do modelo de Estado da Rússia bolchevique.

A ideia de economia pautada pela ação livre de agentes e empresas privadas dentro do mercado era totalmente repudiada por Hitler e Mussolini. Ambos os ditadores acreditavam que somente uma economia rigidamente controlada e organizada pelo Estado, onde amplos setores da economia deveriam ser estatizados ou pelo menos regulados, poderia alcançar os ”anseios nacionais” e garantir o ”bem-comum”.  

A economia de mercado capitalista e sua base doutrinária, o liberalismo laissez-faire, aos olhos de ambos eram coisas maléficas e que deveriam ser enfim abolidas em benefício de um ”socialismo nacional”, que garantisse assim um ”bem-estar social” para o povo. 

Nenhum deles aceitava o irrestrito individualismo econômico, o livre mercado, a propriedade privada, o sistema de preços, a lógica da oferta e demanda, e a motivação de lucro, características do sistema de economia capitalista de mercado. Fascistas e nazistas, assim como os comunistas na Rússia, de diferentes pontos de observação, reconheceram a necessidade de substituir a era da economia liberal ou ”burguesa” por uma nova ordem econômica onde o Estado teria o protagonismo e não mais empresários e agentes individuais atuando dentro do mercado. 

Mas ao contrário dos comunistas russos, e seu programa de socialização rápida e radical dos meios de produção, Hitler e Mussolini ambicionavam não abolir em definitivo a propriedade privada mas antes controlá-la aos poucos, impondo cada vez mais um controle estatal sobre os meios de produção e a atividade econômica. O programa econômico fascista e nazista ia em direção a um socialismo, mas não um socialismo do tipo marxista(comunismo) que tomava a forma de uma ”social-democracia nacional”, leal ao Estado e ao sentimento patriótico.

Adolf Hitler: ”A política econômica da Alemanha é conduzida exclusivamente de acordo com os interesses do povo alemão. Sob esse aspecto, sou um socialista fanático, alguém que tem em mente os interesses de todo o seu povo. Eu não sou escravo de alguns sindicatos bancários internacionais. Eu não tenho nenhuma obrigação com nenhum grupo capitalista. Eu saltei do povo alemão. Meu movimento, nosso movimento, é um movimento do povo alemão, e é apenas para esse povo alemão que somos obrigados.(Adolf Hitler Speech by Chancellor Hitler to the Nazi Party in Munich, February, 1941)

Benito Mussolini: ”Hoje podemos afirmar que o método de produção capitalista está desatualizado. Assim é a doutrina do laissez-faire , a base teórica do capitalismo … Hoje estamos dando um novo e decisivo passo no caminho da revolução. Uma revolução, para ser grande, deve ser uma revolução social.-(Discurso em 14 de novembro de 1933, citado em Under the Axe of Fascism, Gaetano Salvemini, Londres, Reino Unido, Victor Gollancz Ltd. ,1936, p. 131)

Mais especificamente, Hitler e os nazistas expressaram até mesmo possuir mais afinidades com Stálin do que com os fascistas italianos e Mussolini. Muitos nazistas pareciam considerar o Duce italiano um aliado fraco e não suficientemente revolucionário e radical, preferindo antes olhar para a Rússia stalinista como um modelo de estado que se aproximava mais da Alemanha nazista.

De fato, com Stálin o comunismo russo mudou um pouco sua roupagem internacionalista, adotando também um retórica nacionalista, o que aproximou ainda mais o totalitarismo comunista soviético do nacional-socialismo alemão. No final da década de 1920 e início da década de 1930, Stálin criara um regime que abandonara todos os princípios que supostamente tipificavam as aspirações de esquerda e se entregara às noções de “socialismo num só país”, substituindo a retórica do internacionalismo-proletário(que havia sido a tônica das Internacionais Comunistas desde Marx), pelo nacionalismo pan-russo, deixando assim as poucas distâncias entre o comunismo russo-soviético e o nacional-socialismo alemão ainda menores. 

Mas o que de fato aproximou mais os nazistas alemães dos comunistas russos a pilha de milhões de cadáveres que deixaram em seu rastro. Embora o fascismo na Itália tenha sido inegavelmente um regime autoritário e policial, Mussolini nunca chegou a defender e nem praticar um programa de extermínio em massa de sua própria população, como fizeram os nazistas na Alemanha e comunistas na Rússia(e em praticamente todos os outros países em que tomaram o poder).

Os dois regimes totalitários socialistas começaram pela exploração do ressentimento e ódio contra um grupo(”burgueses”,”judeus”, ”reacionários”, etc) e terminaram praticando o extermínio físico, cultural e moral dos alvos aproveitando-se desse ódio político, utilizando-se de níveis de crueldade sem limites e praticando sistematicamente o crime mais hediondo sob pretextos ”humanistas”: o genocídio.

O genocídio em escala industrial contra classes e raças inteiras é a marca dos nacional-socialistas e comunistas-marxistas, que consideram o extermínio de milhões de pessoas como um ”bem” e até mesmo um ”dever” para que o mundo seja ”redimido”. Esse foi sem dúvida o traço que mais uniu comunistas e nazistas, como bem disse o sociólogo francês Alain Besançon, na introdução de sua obra ”Le malheur du siècle”(A infelicidade do século):

”Eles se colocam como objetivo chegar a uma sociedade perfeita, destruindo os elementos negativos que se opõem a ela. Eles pretendem ser filantrópicos, pois querem, um deles, o bem de toda a humanidade, o outro, o do povo alemão, e esse ideal suscitou adesões entusiásticas e atos heroicos. Mas o que os aproxima mais é que ambos se dão o direito – e mesmo o dever – de matar, e o fazem com métodos que se assemelham, numa escala desconhecida na História.”

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