América Latina: entre a democracia e a esquerda bolivariana

Uma análise sobre os fatos políticos recentes na América Latina.

perda de poder que a esquerda sofreu na América Latina nos anos recentes a deixou tão desesperada quanto agressiva. A eleição de presidentes de direita na Guatemala, no Brasil e no Paraguai — entre outros países do continente — mostra como a esquerda vem perdendo relevância de maneira sistemática e recorrente; e a julgar pelos absurdos cometidos por governos de esquerda em países como Brasil, Bolívia, Nicarágua e Venezuela, isso não nos surpreende nem um pouco. No entanto, não podemos incorrer no erro de subestimar a esquerda política e a coalizão do Foro de São Paulo. A esquerda continental não deixará de buscar o poder, custe o que custar, e a eleição de Alberto Fernández como presidente da Argentina mostra que a esquerda, apesar de estar em franca decadência, ainda não foi totalmente derrotada. 

O diagnóstico para uma análise política abrangente que nos coloca diante de uma possível insurreição da esquerda continental nos leva a analisar todos os seus movimentos — tanto individuais quanto coletivos —, em todos os países latino-americanos, por sua intransigência ao padronizar revanches partidárias através de parâmetros estruturais, além de redefinir o seu organograma de atuação tanto a nível local, quanto regional e nacional, para conquistar apoio com base popular. 

Partindo desse pressuposto axiomático, conseguimos analisar a conjuntura geopolítica da América Latina tanto isoladamente quanto em grupo, pois isso nos permite antecipar com lucidez e perspicácia todos os elementos de ação direta e indireta dos diversos movimentos políticos acotovelados por todo o continente que estão inadvertidamente alinhados à esquerda, cujas variáveis — tanto divergentes quanto convergentes —, tendem a assumir a visibilidade de sua coesão ideológica, com o objetivo de conquistar centralização absoluta, capital eleitoral e um demagógico populismo insalubre, que não se furta em exigir o “direito” de exercer o poder. Na maioria desses quesitos, o caso argentino nos diz muito à respeito de como a esquerda age quando está em declínio para conquistar novamente o poder.   

O atual presidente da Argentina, Alberto Fernández, despontou como um dos candidatos favoritos nas prévias eleitorais do ano passado, o que fez o mercado se retrair de forma contundente. Apesar de tomarem conhecimento sobre o seu programa de governo altamente intervencionista, isso não impediu os eleitores argentinos de aderirem a plataforma populista do peronista, que — como todo socialista —, promete resolver problemas complexos com soluções políticas simplórias. Depois que sua vitória foi confirmada, Fernández, membro do Partido Justicialista, assumiu a presidência no dia 10 de dezembro de 2019.

Logo depois de assumir o cargo, Fernández não demorou a aplicar políticas de controle econômico, que não apenas já estão mostrando os seus efeitos deletérios, como contribuirão de forma ostensiva para transformar a segunda maior economia da América do Sul em um país terminal, análogo da Venezuela. Como qualquer socialista — que ignora as leis econômicas mais elementares — Fernández enveredou pelo caminho da total estatização da economia, o que rapidamente começou a mostrar suas nefastas consequências sobre todos os setores do mercado. 

Em uma tentativa desesperada de conter o poder de compra do peso argentino — que há muito sofre com a hiperinflação — o governo implementou uma política de congelamento de preços, sórdida herança dos governos anteriores, que vinha sendo implementada periodicamente tanto por Mauricio Macri quanto por Cristina Kirchner, que faz parte do atual governo como vice-presidente. Macri, apesar de ser rotulado como um liberal, foi na prática um socialista estatizante, cujas políticas macroeconômicas contribuíram de forma suspicaz para arruinar a prosperidade material e financeira da Argentina; principalmente pelo fato de que, enquanto gestor, Macri se preocupou muito mais com as aparências do que com a eficácia de suas medidas. 

O tabelamento compulsório de preços implementado pelo novo governo inicialmente fora estabelecido para setenta produtos, mas rapidamente passou para cento e trinta, e depois continuou a englobar dezenas de outros produtos, em um efeito dominó galopante, que rapidamente colocou o dirigismo governamental como o principal ator da esfera econômica. Uma medida dessa natureza — que além de desprezar a questão da oferta e da demanda, compromete a liberdade de mercado —, contribui para esfacelar todos os elos da cadeia produtiva, criando o que fatalmente pode gerar uma grave e irreversível espiral de escassez. Em uma tentativa de criar empregos artificiais, o governo contratou idosos para fiscalizar o preço dos produtos em mais de dois mil mercados pelo país. 

Eleito presidente da Argentina derrotando Maurício Macri nas últimas eleições, o esquerdista-peronista Alberto Fernandez trouxe de volta para a cúpula do poder a corrupta ex-presidente Cristina Kirchner.

Um dos graves problemas do socialismo é não reconhecer como a intervenção estatal pode ser nociva para a economia; o estado também tende a não reconhecer um limite para essa intervenção. Consequentemente — além de não respeitar a liberdade de mercado, tanto a nível empresarial quanto individual —, o estado jamais se furta em interferir em todos os setores possíveis, e sempre das formas mais despóticas e discricionárias. O intervencionismo do governo de Fernández rapidamente atacou o setor agrícola, elevando para 33% os impostos sobre insumos. A taxa de exportação para o milho e o trigo pode chegar a 15%, enquanto a de soja pode passar de 30%. A reação dos agricultores pelo país inteiro a medida não apenas foi imediata, como impreterivelmente negativa. 

Muitos agricultores passaram a destruir parcial ou totalmente suas lavouras, pois a tarifa para pequenos e médios produtores é tão absurda quanto impraticável. Evidentemente, o governo faz isso em uma tentativa de equilibrar as contas públicas e o déficit fiscal; inadvertidamente, isso sobrecarrega de forma tão descomunal quanto injusta os setores mais produtivos da sociedade argentina. O que o governo de Alberto Fernández esta fazendo é basicamente um crime orçamentário. Ele pretende fechar as contas simplesmente aumentando os impostos, sem levar em consideração as terríveis consequências desse tipo de política macroeconômica. O que o governo está conseguindo é destroçar a cadeia produtiva, gerando todos os elementos necessários para a instauração do caos econômico e social. 

Para protestar contra a onerosa tarifa de exportação de 33% — possivelmente a medida governamental mais injusta, prejudicial e destrutiva implementada até o momento pelo governo de Alberto Fernández —, recentemente diversos produtores rurais decidiram suspender a comercialização de grãos e cereais. As atividades serão oficialmente encerradas na primeira semana de março, entre os dias 2 e 9, quando a Apronor (Asociacion Civil de Productores Agricolas y Ganaderos del Norte), em associação com a Sociedad Rural de Tucuman, espera obter um acordo com o governo, e entrar em um entendimento que anule as tarifas impraticáveis e abusivas. Eles também pretendem recorrer aos governos locais para colocar na ilegalidade a criminosa medida do governo federal. As medidas discricionárias adotadas pelo governo de Fernández já eram temidas pelos produtores rurais e latifundiários desde as eleições. 

Não obstante, longe de ser uma manifestação local, produtores de todas as províncias da Argentina estão se reunindo em suas respectivas agremiações regionais para estudar medidas que os protejam das tarifas abusivas. Em comum, todos lamentam unanimemente a direção em que o governo está indo; ignorando as leis econômicas mais básicas, os custos de produção do setor agrícola e as necessidades da população, o governo parece estar interessado unicamente na questão da arrecadação fiscal, para equilibrar as contas públicas a qualquer preço. 

Evidentemente, o aumento de impostos na Argentina gera um efeito dominó que afetará o preço de inúmeros produtos aqui no Brasil, pelo fato de existir um relevante intercâmbio econômico entre os dois países. De acordo com a Abimapi, a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos, produtos industrializados como pães, bolos, biscoitos e massas — que exigem insumos importados da Argentina, como o trigo —, poderão sofrer um aumento substancial em seu valor final. Ainda que o repasse do custo para o consumidor ocorra de forma gradual, em questão de alguns meses todos esses produtos poderão sofrer substanciais aumentos de preço. Com alimentos ficando cada vez mais caros, a carestia se tornará uma dura realidade a ser enfrentada pelo consumidor. 

A indústria de carne bovina é outra que irá sofrer sumariamente, pois o setor também foi alvo de aumento de impostos sobre exportações, apesar de ser um aumento de 9%, portanto menos agressivo do que o imposto auferido sobre o setor agrícola. Em sua ensandecida voracidade tributária, o governo pretende também anunciar oficialmente no início de março um aumento dos impostos sobre a soja. 

Todo este arrevesado, exacerbado e contraproducente intervencionismo governamental faz parte de um pacote de medidas emergenciais, estabelecidas para “salvar” a economia do país, que entra em seu terceiro ano de grave recessão. O governo também pretende renegociar a sua dívida com o FMI, adotando novas políticas fiscais que possivelmente gerarão ainda mais estagnação econômica tanto a curto quanto longo prazo. O novo governo coloca parte de seus problemas na gestão anterior de Maurício Macri, que apesar de ter sido rotulado como um “liberal”, na prática foi um social-democrata emperdenido, que apenas aprofundou a recessão em que vivem os argentinos, com a adoção de medidas deficitárias e estatizantes. 

É verdade que a demagogia crônica do populismo argentino vem de longa data; ao passo que seria injusto culparmos o recém empossado presidente Alberto Fernández por todos os problemas que a Argentina vem sofrendo, ele é responsável por adotar políticas que agravarão de forma ostensiva todos esses problemas. Como sempre, a política adotada é sempre culpar os governos anteriores. A herança de uma infinidade de problemas perpetua a intransigente demagogia do poder executivo argentino, que eventualmente fica mais ocupado em se justificar do que em resolver problemas de forma pontual e definitiva. Dada a complexidade de todos esses problemas, o interminável festival de desculpas, pretextos e justificativas não surpreende ninguém. 

Com uma dívida externa que é quase do tamanho do PIB, esta cresceu em aproximadamente 75 bilhões de dólares durante o governo Macri, o que configura um problema descomunal para a atual administração. O que evidentemente desmente um relatório que circulou entre os membros do governo Fernández sobre a gestão anterior, que afirmava que Macri deixava para o novo presidente um país “pronto para crescer”. Enfeitando resultados bastante medíocres — também pudera, Maurício Macri, longe de realizar uma administração liberal, foi um socialista moderado que simplesmente tapou o sol com a peneira —, a administração anterior se gabava de sucessos irrelevantes para o desenvolvimento do país, além de justificar seus fracassos nas ingerências da administração anterior, como é de praxe na política. Ao ler o relatório, Fernández pediu para Macri parar com as mentiras, que adocicavam com não poucas sutilezas um governo que, na melhor das hipóteses, poderia ser qualificado como simplório. 

A verdade factual mostra que as arrevesadas soluções populistas adotadas pelo governo de Fernández em apenas um trimestre de governo já dão preocupantes indicadores de venezuelização econômica. Em virtude das restrições absurdas e do controle discricionário sobre a cadeia produtiva, a escassez e o desabastecimento — ainda que gradualmente —, já estão se tornando uma realidade na vida dos argentinos. Os últimos estertores do governo de Macri foram marcados por uma situação de emergência alimentar que sinalizavam a insuficiência de alimentos em diversas regiões do país. A economia popular que subsidiava os arrendamentos mais pobres foi sendo gradualmente dilapidada por políticas econômicas cada vez mais intervencionistas, que contribuíram para a fuga de capital do país. 

Em breve, assim como os venezuelanos, os argentinos — ao comprar produtos básicos nos mercados —, possivelmente serão autorizados a comprar apenas quantidades pré-estabelecidas. Com a produtividade comprometida por medidas burocráticas e estatizantes, além de um extorsivo aumento na carga tributária, as dramáticas consequências do dirigismo econômico logo serão sentidas no país inteiro. As políticas econômicas adotadas pelo atual governo serão catalisadoras de um futuro de extrema miséria, carestia e escassez para a Argentina, que pode ficar pior do que a Venezuela, em virtude de suas dimensões, sendo o segundo maior país da América do Sul.  

As consequências de toda essa destruição, invariavelmente, serão sentidas no Brasil. Assim como os venezuelanos há tempos fogem da ditadura bolivariana e de suas nefastas consequências no norte do país — atravessando a fronteira pelo estado de Roraima —, possivelmente o Rio Grande do Sul poderá ser inundado com ondas de argentinos desesperados para fugir da miséria e da escassez. Essas migrações em massa não deixam de ser uma consequência natural do socialismo, que destrói um país, obrigando a população a fugir para uma nação vizinha que lhes ofereça condições de vida mais dignas e salutares. 

Tudo indica que a tragédia, infelizmente, está apenas começando. O governo de Fernández está interferindo em praticamente todas as áreas, não deixando nem sequer o mais vago resquício de liberdade para a população. Para tentar controlar o desemprego, o governo também encareceu a demissão de funcionários do setor privado, ignorando, evidentemente, as consequências drásticas que isso impõe ao mercado de trabalho. Além de uma medida dessas afastar investidores estrangeiros — em virtude da insegurança financeira e jurídica que tal medida acarreta para uma empresa —, aos poucos isso acaba sendo o catalisador de uma nefasta estagnação econômica, que apenas aprofunda a recessão iminente. 

Em uma tentativa artificial de fomentar o turismo doméstico, o governo também impôs uma nova tarifa às companhias aéreas, que deve reduzir drasticamente o turismo argentino para o exterior. O governo também encareceu substancialmente a aquisição de moedas estrangeiras, para impedir a desvalorização do peso argentino. No entanto, no presente momento — com o atual surto de coronavírus —, a moeda argentina enfrenta uma desvalorização galopante, que afeta todas as demais moedas sul-americanas. 

Infelizmente, o cenário da Argentina é trágico, porque acaba se tornando uma receita para o desastre. Sucessivas intervenções econômicas vão sendo implementadas, para resolver problemas que foram gerados justamente pela intervenção do estado na economia. Isso acaba gerando uma espiral de graves problemas, que sempre terminam com decretos de mais intervenção estatal. E o clamor popular leva muitas pessoas a pedir soluções do estado, ignorantes para o fato de que foram justamente as intervenções discricionárias do estado sobre os setores produtivos e econômicos da sociedade que acabaram sendo os responsáveis por gerar estagnação, carestia e escassez; que por sua vez sempre irão descarrilhar para protestos, tumulto e convulsões sociais. Ou seja, é a receita certa para a composição de um expansivo e derradeiro caldeirão de desastres.    

Nem tudo são más notícias, no entanto. Se por um lado a Argentina está trilhando o caminho da venezuelização, a Bolívia por sua vez — ao rechaçar o ditador Evo Morales do poder — conseguiu se afastar desse processo. É claro que o novo governo que assumiu o comando do país terá que adotar medidas liberalizantes na economia se pretende expurgar o socialismo de forma eficaz e substancial; no entanto, a revolta popular que depôs um ditador socialista ávido por se perpetuar no poder manifestou-se como uma contrarrevolução nacional de sucesso, que impediu o país de se transformar em uma deplorável ditadura socialista.  

Presidente da Bolívia desde 2006, Evo Morales pretendia se perpetuar no poder, como todo déspota socialista. Para tanto, se candidatou para um quarto mandato presidencial em 2019, apesar de tal ato ser inconstitucional. No entanto — ignorando a ilegalidade da ação —, o Supremo Tribunal Eleitoral da Bolívia aceitou a viabilidade da candidatura de Evo Morales. Na prática, sua eleição configurava um golpe de estado em andamento.  

Evo Morales acabou ganhando as eleições. Pouco tempo depois de sua vitória ter sido anunciada, no entanto, ela foi denunciada como uma fraude pela OEA, que constatou diversas irregularidades notáveis em todo o processo eleitoral. Uma averiguação minuciosa realizada através de auditorias meticulosas comprovou que no mínimo setenta e oito atas eleitorais foram falsificadas, os relatórios de diferentes sessões espalhadas em regiões distintas do país tinham a mesma caligrafia — o que, tecnicamente, configuraria uma impossibilidade prática —, o número de eleitores foi inflado, pois era comparativamente maior que o número real, e o número de eleitores estrangeiros, especialmente de bolivianos residentes na Argentina que haviam supostamente votado em Evo, também havia sido adulterado, pois era superior aos números oficiais. As discrepâncias eram grandes demais para serem ignoradas. Eventualmente, depois que investigações começaram a ser realizadas, a presidente do Supremo Tribunal Eleitoral da Bolívia foi presa, acusada de ser cúmplice da fraude. 

Após sua deposição por fraudes nas eleições gerais da Bolívia em 2019, Evo Morales trabalha para desestabilizar e deslegitimar o atual governo do país, que o investiga por crimes de corrupção e terrorismo.

Quando as tensões aumentaram, Evo Morales fugiu para o México. Inicialmente aceitando com certa resignação o fim de sua carreira política, em questão de pouco tempo — certamente por pressão da esquerda latino-americana —, o candidato a ditador declarou que fora vítima de um golpe; desculpa esfarrapada que a esquerda sempre usa quando é legitimamente rechaçada do poder por uma população justificadamente exaurida. Posteriormente, durante uma entrevista que concedeu, Evo ficou encolerizado ao ser questionado pelo entrevistador do porquê ele não buscou asilo político na Venezuela, já que era uma nação muito mais próxima da Bolívia. 

Depois que Evo Morales foi escorraçado do poder, a senadora Jeanine Añez assumiu a presidência da Bolívia, e vem ocupando o cargo desde então. Ainda é cedo para dizer que rumo a Bolívia irá tomar, mas podemos fazer conjecturas, baseadas nas convicções políticas da ocupante do cargo máximo do poder executivo. Jeanine Añez é integrante do partido Movimiento Demócrata Social, que defende o conservadorismo social e o liberalismo econômico. A pauta conservadora é muito importante para impedir que práticas nefastas como o aborto sejam legalizadas, e o liberalismo econômico é fundamental para impedir o país de soçobrar na ruína do dirigismo governamental de políticas socialistas, que causaram a ruína da Venezuela, e provavelmente farão o mesmo com a Argentina.  

A derrocada de Evo Morales representou um ponto crucial para a derrota do socialismo na Bolívia. A ditadura de Evo só não foi consolidada porque os militares não permitiram. Leais à constituição, eles não ficaram apáticos diante do golpe de estado que estava sendo executado pelo candidato a ditador, mas reagiram de forma pontual a uma situação alarmante, que colocava o país inteiro em risco. Tão crucial quanto a ação dos militares, foi a lealdade da polícia à população, que se recusou à reprimir protestos e manifestações populares, muitas vezes juntando-se aos manifestantes.   

A questão mais importante em todo esse processo, no entanto, vem do fato de que as forças armadas e as agências policiais na Bolívia só permaneceram leais à constituição porque — ao contrário do que aconteceu na Venezuela — Evo Morales esqueceu de cooptar o apoio destas instituições, que compõem o poder de repressão do estado, através de subornos e promoções para os indivíduos que compõem a alta hierarquia da cadeia de comando. Tendo negligenciado o apoio da polícia e da alta cúpula militar, Evo Morales não tinha sustentação prática para permanecer no poder. Caso tivesse feito isso, no entanto, provavelmente hoje os bolivianos estariam vivendo em uma ditadura socialista de facto.  

Ter expurgado a ameaça de uma ditadura socialista, no entanto, coloca na Bolívia uma perspectiva de futuro que ela evidentemente não teria, caso tivesse se convertido em um regime totalitário de esquerda. Determinado a se prolongar no poder até 2025, Evo Morales era o protótipo do socialista clássico, que — assim como os seus colegas Hugo Chávez, Fidel Castro, Nicolás Maduro e Daniel Ortega, para citar apenas os latino-americanos mais conhecidos — recusa-se a sair do poder, uma vez que está lá. Apenas uma insurreição popular agressiva e intransigente é capaz de derrubar o tirano. Graças a sua determinação aguerrida, os bolivianos conseguiram impedir o seu país de se tornar uma réplica da Venezuela.   

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Na Colômbia, a situação, por outro lado, parece caminhar para uma turbulenta e agressiva insurgência revolucionária. Na presidência de Juan Manuel Santos Calderón, um tratado de paz havia sido estabelecido entre o governo e a guerrilha terrorista marxista FARC, o que gerou enorme controvérsia em toda a América Latina; o governo de Santos Calderón passou a ser visto como fraco e condescendente pelo fato de negociar com uma organização terrorista, cujos integrantes — do ponto de vista da maioria dos cidadãos colombianos — deveriam ser todos processados e presos pelos crimes cometidos durante décadas de guerra civil e de atividades criminosas tão extensas quanto cruéis. O efêmero acordo de paz, no entanto, pareceu chegar ao fim em agosto de 2019, quando um dos líderes das FARC, Luciano Marín, convocou seus correligionários a pegarem em armas, e se prepararem para uma sangrenta insurreição popular. 

Com a possibilidade da eclosão de um novo capítulo na longa guerra contra o narcotráfico e os inúmeros grupos de guerrilheiros rebeldes que pululam na região, a violência pode novamente se tornar endêmica na Colômbia e nas regiões circunvizinhas, o que marcaria um descomunal retrocesso nas negociações de paz entre o governo colombiano e as FARC, especialmente depois da organização de esquerda revolucionária ter concordado em abandonar a violência, para se tornar exclusivamente um partido político. Na época em que o acordo foi estabelecido, mais de seis mil guerrilheiros concordaram em entregar as suas armas para serem destruídas. Infelizmente, tanto o governo colombiano quanto os rebeldes revolucionários falharam em cumprir a maioria das cláusulas estabelecidas no acordo de paz, e invariavelmente as tensões e as hostilidades voltaram a incendiar o ambiente político. Elas parecem, no entanto, resguardar pretensões muito mais ambivalentes e sinistras do que a simples luta pelo poder político. 

Iván Duque — presidente da Colômbia desde agosto de 2018 —, afirmou não estar disposto a fazer concessões aos rebeldes revolucionários. O mandatário colombiano declarou que Luciano Marín não passa de um narco-terrorista que pretende enriquecer avidamente com os cartéis de entorpecentes da região, e que envolve suas atividades ilícitas em uma fachada de luta ideológica para enganar os incautos e ganhar credibilidade política. Miguel Ceballos, outra autoridade do governo colombiano, afirmou algo muito similar, ao dizer que o real interesse de Marín é estabelecer uma nova rota para o narcotráfico na região, que o permita evadir tanto a polícia colombiana quanto a Interpol. 

Invariavelmente, parece que o real interesse das FARC — ao menos de muitas das inúmeras facções que a compõem — é continuar lucrando com o narcotráfico, que movimenta bilhões de dólares por ano, e sustenta a maioria das células que integram o grupo rebelde. Atualmente, na Colômbia, existem mais de três dezenas de quadrilhas integrantes das FARC que estão direta ou indiretamente envolvidas com a produção de coca. Sendo a Colômbia o maior produtor de cocaína do mundo, tudo indica que a prioridade dos líderes da organização terrorista é escoar a produção para os diversos cartéis em toda a América Latina que são diretamente abastecidos com o entorpecente colombiano. Como afirmou o general Luis Fernando Navarro, “se você observar onde esses grupos armados organizados estão ou onde eles apareceram, verá que estão associados ao crime, [especialmente] onde há uma alta presença de narcotráfico.” 

O presidente Iván Duque afirmou também que não pretende ser suave em sua abordagem com as FARC, e criticou avidamente o seu antecessor, Juan Manuel Santos Calderón, presidente da Colômbia de 2010 a 2018; Duque declarou que Calderón foi demasiadamente indulgente com criminosos que aterrorizaram a Colômbia durante décadas, com assassinatos, sequestros, atentados terroristas, extorsão e estelionato, entre muitos outros crimes, responsáveis pelas feridas e cicatrizes de uma das mais sanguinolentas e atrozes guerras civis da história da América Latina. Ao conceder anistia a centenas de criminosos perigosos e violentos que deveriam ter sido processados com todo o rigor da lei, Calderón demonstrou fraqueza, pusilanimidade e temeridade. A paz, concretizada a qualquer preço, se transformou em injustiça e ressentimento no coração de milhares de colombianos. Sem dúvida, Calderón — na época das negociações de paz com as FARC —, parecia mais preocupado com o prêmio Nobel da Paz, que ele conquistou em 2016. 

A Farc usou o falso discurso de ”paz” com o governo colombiano para conseguir legitimidade política e transformar-se em partido político, e agora, com ataques recentes, mostra que não pretende cessar sua cruzada terrorista na Colômbia.

Para agravar a situação, recentemente a ELN — Ejército de Liberación Nacional, outra organização terrorista colombiana de matriz revolucionária, ativa desde 1964 — também convocou seus integrantes para a luta armada, registrando um aumento expressivo em seu contingente. Ao contrário das FARC, no entanto, a ELN retomou as atividades de forma agressiva e beligerante, com um brutal atentado terrorista executado na capital, Bogotá. Em janeiro de 2019, um caminhão carregado de explosivos invadiu uma academia de polícia; ao explodir, matou vinte e duas pessoas, incluindo o autor do atentado, e feriu sessenta e oito. A ELN confirmou sua responsabilidade pelo ato terrorista.  

O atentado fez Iván Duque cancelar imediatamente toda e qualquer negociação de paz com a ELN. De acordo com os setores da Inteligência Colombiana, diversos integrantes da organização terrorista estão refugiados na Venezuela, com o conhecimento e a aprovação do ditador Nicolás Maduro; embora negue estar diretamente envolvido, o líder bolivariano já reconheceu que diversas rotas utilizadas pela organização terrorista passam pela Venezuela. 

Com diversos grupos terroristas em atividade, a Colômbia fica suscetível a um terrível e pernicioso período de desestabilização social e política, cuja crise pode deflagrar uma perigosa onda de morticínio e violência. Se medidas discricionárias urgentes não forem implementadas pelos órgãos de segurança do governo, os colombianos poderão constatar que o fantasma da guerra civil nunca ficou para trás. Ele apenas retrocedeu por um tempo, para voltar mais violento e agressivo do que nunca.   

A Venezuela, por sua vez, também parece estar no estopim de uma guerra civil, embora as condições de vida na ditadura socialista bolivariana tenham se deteriorado tanto, que até mesmo armas e munições tornaram-se escassas, inclusive para os criminosos. Embora a violência tenha se tornado sistêmica desde que o país mergulhou em um caos econômico sem precedentes na história da América Latina — em virtude das políticas ostensivamente estatizantes dos governos de Hugo Chávez —, as turbulências e os conflitos urbanos tornaram-se sintomáticos da tirania política da ditadura bolivariana, que é completamente incapaz de fornecer qualquer estabilidade aos cidadãos do país.

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Com a hiperinflação, a fuga de capital, o desabastecimento, a escassez de alimentos e todos os demais problemas inerentes a uma economia hiper-estatizada, a crise se aprofundou de forma dramática. Em janeiro de 2019, Juan Guaidó foi declarado presidente da Venezuela pela Assembleia Nacional. Desde então, ele e o ditador Nicolás Maduro disputam a liderança legítima pela presidência do país; Nicolás Maduro — que ganhou a última eleição fraudando as urnas — declarou que Guaidó é um golpista que pretende entregar a Venezuela para o imperialismo ianque. O que o ditador venezuelano omite, no entanto, é que ele próprio está gradualmente entregando a Venezuela ao império asiático russo-chinês. 

É impossível saber até onde as duas forças políticas antagônicas estão dispostas a ir, para conquistar a vitória. Guaidó conta com enorme apoio popular, mais de cinco dezenas de países no mundo o reconhecem como o legítimo presidente da Venezuela; Maduro, no entanto, tem os militares e todo o aparato de repressão estatal a seu favor. Recentemente, Guaidó saiu às ruas liderando um novo protesto contra o ditador Nicolás Maduro e seu opressivo governo despótico.

Essa recente manifestação popular tinha o objetivo maior de fomentar um debate na Assembleia Nacional, para discutir reformas econômicas capazes de tirar a Venezuela da crise. Guaidó também pretende debater a possibilidade de realizar novas eleições, para rechaçar do poder o governo ditatorial de Nicolás Maduro. Maduro, no entanto, não ficou parado. No mesmo dia da manifestação liderada por Guaidó, o ditador bolivariano convocou os seus sicofantas para realizarem uma marcha de protesto contra os seus opositores políticos, onde bradaram em uníssono o slogan “as ruas pertencem ao povo, não à burguesia”. 

Guaidó conta com o apoio dos Estados Unidos, especialmente do presidente Donald Trump. Esse apoio, no entanto, é muito mais simbólico do que presencial, já que uma intervenção militar americana na Venezuela — possibilidade que tem sido frequentemente discutida —, sempre foi impreterivelmente descartada. Guaidó afirma, no entanto, que também vê os presidentes Jair Bolsonaro, do Brasil, e Iván Duque, da Colômbia, como fortes e importantes aliados na luta contra as forças políticas do Foro de São Paulo no continente.

Embora estivesse proibido de sair do país, Juan Guaidó deixou a Venezuela em janeiro, e ficou quase um mês fora; o ativista político que disputa a presidência da Venezuela com Nicolás Maduro passou por diversos países da América Latina para fazer alianças políticas que o permitam contrabalançar as forças repressivas da ditadura, que dão sustentabilidade a tirania bolivariana de Nicolás Maduro. Ainda que o apoio externo à Guaidó seja relevante — e aumente cada vez mais conforme a situação política da Venezuela se torna reconhecida como uma ditadura de facto —, a situação doméstica do país permanece incerta, instável e atribulada, porque os militares não irão simplesmente mudar de lado; ao menos, não enquanto Maduro tiver dinheiro em caixa para suborná-los, e enquanto as Forças Armadas Revolucionárias de Cuba permanecerem dando assistência e suporte ao exército venezuelano, para manter o regime bolivariano no poder. 

O líder da oposição á ditadura da cúpula chavista, Juan Guaidó têm percorrido a América Latina e o mundo para buscar apoio diplomático contra o regime do ditador Nicolás Maduro na Venezuela.

A luta na Venezuela pode estar só começando. Como todo ditador socialista, Nicolás Maduro não deixará o poder sem lutar. Ditadores se enxergam como os legítimos detentores do poder, e a situação da Venezuela — que se agrava de forma contundente com o passar do tempo — sinaliza de maneira pungente que, sem uma guerra civil, as coisas não irão mudar tão cedo. A tendência, portanto, é que a luta política se prolongue por um bom tempo, e a balança de poder não irá favorecer a população, enquanto as forças de segurança forem leais ao ditador Nicolás Maduro. 

Inadvertidamente, aquele que já foi um dos países mais estáveis e desenvolvidos da América Latina também se encontra em um lastimável estado de calamidade pública, cuja conclusão não parece aproximar-se tão cedo. Os protestos que acometem o Chile desde 14 de outubro de 2019 — portanto há quase seis meses — mostram de forma inequívoca como a esquerda é hábil em deflagrar situações capazes de gerar instabilidade política a longo prazo, assim como ela sabe também tirar vantagem do caos social gerado por situações de crise.  

O Chile seria talvez a última nação que poderíamos imaginar sendo engolfada por uma áspera e violenta conflagração política. País mais próspero e desenvolvido da América Latina — com diversos indicadores sócio-econômicos de países de primeiro mundo —, o Chile se desenvolveu de forma substancial durante a ditadura militar de Augusto Pinochet; este governo, apesar de ter sido efetivamente um regime autoritário e discricionário, foi uma das poucas ditaduras de livre mercado da história. Com a adoção de medidas econômicas liberalizantes, e um processo de desburocratização e desestatização da economia que impulsionou o setor privado, O Chile em pouco tempo se tornou um país próspero e desenvolvido, que deixou para trás todos os seus vizinhos latino-americanos. De maneira que as violentas manifestações e as convulsivas conflagrações políticas que estouraram no país no último trimestre do ano passado deixaram diversas pessoas surpresas.  

O atual presidente do Chile é Sebastián Piñera, que assumiu o poder em 2018, embora ele tenha exercido a presidência de 2010 a 2014. Embora seja um político independente há uma década, por mais de vinte anos Piñera foi integrante da Renovación Nacional, um partido liberal-conservador. Ainda que a eficiência de algumas de suas políticas sejam questionáveis, Piñera conseguiu consolidar no Chile um nível de estabilidade econômica que sua antecessora, Michelle Bachelet, colocou em risco, com a adoção de políticas socialistas estatizantes; infelizmente, com o passar dos anos Piñera começou a engajar-se em um política mais fisiológica e indulgente do que propriamente ideológica e conservadora. 

Os manifestos que eclodiram no Chile em outubro de 2019 à princípio foram justificados com o aumento da tarifa do metrô de Santiago, mas a mobilização estudantil rapidamente tomou proporções nacionais, sendo invariavelmente cooptada pela esquerda política. É impossível saber, no entanto, se a esquerda planejou o motim desde o princípio, ou se militantes se infiltraram de forma gradual nos protestos, para transformá-los em manifestações de caráter político, o que foi realizado com êxito.

Tendo começado no dia 14 de outubro, as manifestações estudantis rapidamente conquistaram projeção nacional, com o presidente Piñera convocando os Carabineros — a polícia nacional chilena — para conter os protestos, e mitigar o caos social gerado pelas manifestações que, em sua maioria, tinham todas um caráter absurdamente hostil e violento.

Eventualmente, as manifestações se tornaram um anfiteatro da esquerda política, que passou a exigir a reformulação do sistema; entre as inúmeras demandas apregoadas pelos militantes, estão reformas no sistema de saúde e previdenciário, aumento do salário mínimo — o que, ao contrário do que é alardeado pelos economistas mainstream, é prejudicial para a economia e contribui para o desemprego —, o impeachment do presidente Sebastián Piñera e a criação de uma nova constituição, de caráter socialista, entre outras abominações de viés descaradamente ideológico. 

A esquerda chilena deliberadamente negligencia — cegada de forma virulenta por sua nefasta ignorância ideológica, bem como por sua desmesurada ambição pelo poder — que o Chile só se tornou um dos melhores países do mundo justamente por questão do capitalismo e da liberdade de mercado que fora implantada pelo regime militar de Pinochet, depois que estes depuseram o governo socialista de Salvador Allende. 

Assim como nós, brasileiros, temos memória curta, não há dúvida de que os chilenos sofrem do mesmo problema. Além de não compreender com exatidão o que possibilitou ao seu país se tornar um eixo axial de prosperidade e referência em liberdade econômica, lamentavelmente os seus cidadãos esquecem que o Chile já foi um país socialista, e sofreu demasiadamente com isso. 

Chilenos em geral — especialmente os militantes de esquerda — esquecem que há pouco mais de quatro décadas atrás, em virtude do deplorável governo marxista-leninista de Salvador Allende — um comprometido membro do Partido Socialista do Chile —, que foi presidente da nação andina de novembro de 1970 a setembro de 1973, o Chile passou a sofrer as degradantes consequências do socialismo, como desabastecimento, carestia, recessão financeira e colapso econômico, além dos severos tumultos políticos e sociais causados por esses problemas.

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Naquela época, analisando todo o contexto, o que não faltava aos chilenos eram motivos para preocupações. Salvador Allende era um associado muito íntimo de Fidel Castro, e frequentemente recebia o ditador cubano no Palacio de La Moneda. Fidel Castro foi o catalisador de diversas revoluções socialistas tanto na América Latina quanto na África, e pretendia transformar o Chile em um estado satélite da União Soviética. Na época, o mundo vivia o ápice da Guerra Fria, e os países que conseguissem escapar da influência americana — longe de estabelecer um caminho independente, como defendia Haya de la Torre, que pregava a rejeição tanto do imperialismo ianque quanto do socialismo soviético — fatalmente acabariam se tornando estados-satélites da URSS, sendo indiretamente governados pelo Kremlin. 

A revolução socialista no Chile, no entanto, não ocorreria por meio de uma insurreição armada, pelo contrário; a fachada democrática do regime de Allende consagraria à ditadura popular uma aparente unanimidade coletiva, que contaria com ostensiva propaganda oficial do regime para legitimar o poder nacional. Allende, um social-democrata, não queria subverter a ordem através de uma revolução violenta, mas pretendia estabelecer uma ordem social marxista através da implementação de medidas políticas gradualistas. 

Acontece que as medidas econômicas implementadas por Allende não demoraram em gerar os esperados resultados negativos que tanto contribuiram para dilacerar o país. Em 1973, o Chile estava literalmente se transformando em uma Venezuela. A estatização e a nacionalização sistemática da economia, a expansão irrefreável do estado de bem-estar social e as medidas intervencionistas discricionárias implantadas de forma vertical pelo estado contribuíram para destroçar de forma contumaz todos os setores produtivos da sociedade chilena. Desta forma, desabastecimento, desemprego, hiperinflação, greves constantes, tumultos políticos e conflitos sociais tornaram-se cada vez mais recorrentes no Chile, e o governo parecia incapaz de lidar com todos esses problemas, que ameaçavam levar ao país ao colapso.  

Desesperados por uma solução, os setores mais conservadores da sociedade começaram a solicitar uma intervenção militar. Se os militares chilenos por sua vez estavam determinados a agir, é bem verdade que — assim como foi o caso aqui no Brasil em 1964 — os americanos tiveram grande participação no golpe de estado que depôs o presidente socialista Salvador Allende. Na época, como foi dito acima, o mundo vivia o auge da Guerra Fria, e depois que Cuba se tornou uma ditadura comunista, o governo americano ficou extremamente receoso que outros países na América Latina acabassem se tornando comunistas. Por essa razão, naquela época os Estados Unidos tinha uma política externa muito mais agressiva do que a adotada atualmente, e agia pontualmente para impedir que outras nações do continente acabassem caindo na esfera de influência soviética.

Com o aval do governo americano, e determinados a conter a revolução socialista que silenciosamente estava em curso no país, as forças armadas chilenas — exército, marinha, aeronáutica e carabineros — se uniram para dar um fim à praga socialista que gradualmente destroçava a nação, como uma degradante e corrosiva metástase. Em 11 de setembro de 1973, os militares chilenos bombardearam o Palácio de La Moneda, e o presidente Salvador Allende, para não cair nas mãos de seus opositores políticos, decidiu tirar a própria vida. 

É bem verdade que neste ponto começa um capítulo relativamente trágico da história chilena. O país virou inadvertidamente uma ditadura, com toques de recolher e uma rígida política de vigilância cultural. Na prática, os chilenos foram libertados de uma ditadura marxista-leninista que gradualmente se consolidava, para se tornarem reféns de uma ditadura militar anticomunista, que seria quase dez vezes mais feroz do que o regime militar brasileiro.  

Se a ditadura Pinochet cometeu severos equívocos — a começar pelo fato de ter sido uma ditadura — não há como não reconhecer o fato de que muitos êxitos foram conquistados, sobretudo no aspecto econômico. Quando o general Augusto Pinochet estabeleceu a sua primazia governamental, depois de sabotar a autoridade dos seus companheiros da junta militar para se perpetuar no poder, inicialmente deveria haver uma rotatividade entre os líderes das quatro forças armadas no comando do que fora chamado de Junta Militar de Gobierno, ele deu início a uma dinâmica e flexível tecnocracia, em que pretendia ter os indivíduos mais capacitados para governar os ministérios. 

Como não entendia nada de economia, Pinochet aceitou a ajuda do governo americano, que enviou os economistas da notória escola de Chicago para ajudá-lo a implementar as melhores políticas econômicas para o Chile. Junto com vários economistas da escola de Chicago, foi até o Chile o seu mais notável e excepcional representante, Milton Friedman, que conquistou o Prêmio Nobel de Economia em 1976. Embora não concordasse com o regime discricionário dos militares, baseado na supressão arbitrária de liberdades individuais — algo que deixou claro em diversas ocasiões —, Friedman aceitou de bom grado ir até o Chile para dar aulas de economia aos militares, e instruí-los no que deveriam fazer para permitir ao país desenvolver-se economicamente. 

Como uma escola econômica de caráter moderadamente liberal, Friedman falou aos militares que eles deveriam interferir na economia o mínimo possível; se o socialismo se baseia na prerrogativa de total controle do estado sobre a economia, e justamente por essa razão gera estagnação e pobreza, o capitalismo — sistema econômico que efetivamente produz progresso, prosperidade e desenvolvimento —, tem uma premissa totalmente oposta. O estado deve intervir o mínimo possível, e simplesmente deixar o capitalismo de livre mercado agir de acordo com as leis de oferta e demanda, gerenciadas pela dinâmica voluntária da livre associação e das necessidades humanas individuais. 

Friedman recomendou aos integrantes do governo implementar medidas de liberalização econômica, desregulamentando e desestatizando a economia, além de promover um amplo programa de privatizações das estatais, até mesmo daquelas consideradas “estratégicas”, o que no caso envolvia a negociação das minas de cobre, que vem a ser um dos mais importantes e valorizados commodities do Chile. Tão importante quanto, manter a carga tributária sobre o setor privado no menor patamar possível era um elemento fundamental para estimular a competitividade, o crescimento e a abertura de novos empreendimentos pelo país. 

Ao adotar todas estas medidas econômicas liberais, o Chile — além de deixar a estagnação socialista para trás —, em questão de pouco tempo se tornou um dos países mais prósperos e desenvolvidos do mundo. A razão para isso é muito fácil de entender. A liberdade de mercado, um elemento exclusivo do capitalismo e inexistente no socialismo, é o verdadeiro catalisador do progresso financeiro e material. O socialismo, ao impor severas restrições econômicas sobre uma sociedade, em sua tentativa autoritária de controlar os indivíduos, não apenas os impede de gerar riquezas, como os obriga a viver em uma condição permanente de recursos escassos e pobreza sistêmica. 

A liberdade que vem com o capitalismo permite às pessoas que desenvolvam todas as suas potencialidades, na área onde se sintam mais confortáveis para aprimorar suas habilidades, serem úteis, negociar sua força de trabalho e vivenciar sua produtividade. Ainda que não prometa o paraíso — e nem poderia, pois ao contrário do socialismo, o capitalismo não é uma ideologia utópica —, a liberdade de um sistema econômico descentralizado é o único organograma social que oferece possibilidades para o indivíduo crescer e se desenvolver tanto a nível profissional quanto pessoal.     

Os resultados conquistados pelo Chile desde que adotou o liberalismo econômico — o que ocorreu mais ou menos na mesma época da Nova Zelândia, outro país que, depois de um longo e perverso período de brutal estagnação, também abandonou a social-democracia para implementar reformas econômicas liberalizantes — falam por si só. De acordo com a Heritage Foundation, o Chile é o terceiro país com maior liberdade econômica do continente americano, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e do Canada, e o décimo oitavo país mais economicamente livre do mundo. Para efeitos de comparação, nesta lista o Brasil ocupa a centésima quinquagésima posição, sendo classificado como um país economicamente não-livre. Até mesmo a China socialista, que está em centésimo lugar, é um país que usufrui de maior liberdade econômica que o Brasil.    

Infelizmente, ignorando todos os fatores que permitiram ao Chile se tornar uma produtiva, invejável e pujante potência econômica, a esquerda chilena persiste em travar a luta contra o fantasma do “neoliberalismo”, colocando no modelo econômico liberal a culpa por todos os problemas que acometem o país. A verdade é que, para além da narrativa esquerdista — quando verificamos os fatos e ignoramos a colérica e infantil intransigência progressista —, constatamos que o Chile é o mais fantástico exemplo de desenvolvimento econômico da história da América Latina.  

Com uma geração de riquezas que propiciou de forma elevada o seu desenvolvimento tanto em questões financeiras quanto materiais, profissionais e educacionais, os indicadores sócio-econômicos do Chile estão entre os melhores da América Latina. Os estudantes chilenos tiveram as melhores notas do PISA de todos os países da América Latina, e o Chile tem o maior PIB per capita da região, com uma taxa de crescimento anual estimada em 3,3. Ou seja, analisando os dados das últimas quatro décadas, é impossível deixar de reconhecer os efeitos benéficos do “milagre” econômico chileno, que possibilitaram ao país andino se tornar praticamente uma nação de primeiro mundo.  

Infiltrando-se nas manifestações recentes no Chile, a extrema-esquerda socialista chilena aproveitou a oportunidade para fazer valer e propagar sua agenda radical anti-capitalista e tentar desestabilizar o governo de Sebastián Piñera.

A realidade prática, no entanto, pouco ou nada importa para a narrativa ideológica da esquerda, que parece mais preocupada em subverter a ordem social em nome do poder político, do que em efetivamente criar condições materiais favoráveis para que os cidadãos melhorem de vida. Desde que as manifestações começaram no Chile, trinta e uma pessoas perderam a vida, e mais de onze mil e quinhentas ficaram feridas. Centenas de estabelecimentos foram saqueados e destruídos, e o país literalmente afundou no caos. Para reprimir as manifestações e conter a avalanche de destruição, o presidente Piñera convocou o exército e os carabineros para ocuparem as ruas, e o toque de recolher foi impostos em dezesseis regiões do país. No ápice das manifestações, mais de dez mil militares foram convocados para conter aproximadamente um milhão de manifestantes. 

As manifestações urbanas, sem exceções, foram marcadas por sua extrema violência. Dezenas de ônibus foram incendiados, vidraças e janelas de prédios foram quebrados, patrimônio público foi depredado, semáforos foram destroçados e estabelecimentos comerciais foram saqueados, destruídos e vandalizados de forma sistemática. Em diversas regiões do país, houveram confrontos entre militares e manifestantes; estes eram reprimidos com jatos d’água e bombas de gás lacrimogêneo. Por várias semanas, o Chile experimentou um colapso sem precedentes em sua história, como não era visto em décadas. Diversas empresas deixaram de operar por questões de segurança — exigindo que os funcionários ficassem em casa — e vários voos foram cancelados nos principais aeroportos do país. O governo decretou estado de emergência para a capital, Santiago, que foi estendido a região metropolitana. Até o final de novembro, mais de um mês e meio depois que começaram as convulsões sociais, o número de pessoas presas passava de sete mil e duzentos. 

Sabendo, no entanto, que não poderia vencer os protestos no grito, o presidente Piñera gradualmente passou a atender algumas das demandas e exigências dos manifestantes. A primeira delas foi reduzir a tarifa do metrô de Santiago — que aparentemente serviu como estopim para as manifestações —, e depois um pacote de cortes de gastos do governo foi encaminhado para a câmara dos deputados, com o objetivo de cortar pela metade os salários de toda a classe política do país, sem exceções; senadores, deputados, ministros, governadores e até o presidente Piñera poderão ter cortes de 50% em sua remuneração. Uma nova constituição também se tornou uma demanda primordial dos manifestantes, e ganhará protagonismo esse ano. No mês de abril, os chilenos irão decidir em plebiscito o futuro de sua constituição atual, que apesar de ter cristalizado os elementos que propiciaram ao país a conquista de um elevado nível de progresso e prosperidade, é mal vista por centenas de pessoas justamente por ser uma herança da ditadura pinochetista. 

Na metade do mês de fevereiro, ocorreram manifestações pacíficas nas ruas de Santiago, tanto entre pessoas favoráveis a uma nova constituição, quanto cidadãos que são abertamente contrários a ideia. Centenas de pessoas compareceram às manifestações, com bandeiras do Chile — algumas bradando fotos e pôsteres do ditador Augusto Pinochet —, declarando sua franca oposição à ideia de uma nova constituição. Do outro lado, manifestantes favoráveis exigiam uma constituição de caráter mais social e igualitário, ostensivamente influenciada pela ideologia progressista. A verdade, no entanto, é que o primeiro grupo, o de pessoas contrárias à implementação de uma nova constituição, de aproximadamente mil pessoas, era muito superior ao segundo grupo, o de pessoas favoráveis à mudança, contabilizado em apenas cinquenta. 

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De qualquer maneira, no dia 26 de abril — conforme estabelecido pelo presidente Piñera em dezembro do ano passado — ocorrerá um plebiscito; dependendo do resultado, os chilenos poderão exigir a elaboração de uma nova constituição, bem como escolher quem serão os mandatários a elaborar o novo texto.  A esquerda socialista chilena, como a esquerda mundial, vive em um conto de fadas utópico; não apenas persiste em ignorar as razões do fantástico sucesso do formidável desenvolvimento do seu país — único na história da América Latina —, mas realmente acredita na fantasia de uma ideologia utópica, que na prática provocou apenas miséria, estagnação, inanição, pobreza e morte em uma escala sem precedentes na história humana. 

Apesar do grande estopim inicial ter passado, os protestos continuam no Chile em uma escala relativamente preocupante. O festival de música de Viña del Mar, a quarta maior cidade do Chile — realizado desde 1960 — considerado o mais importante de toda a América Latina, foi marcado por uma série de violentos atos de vandalismo. À despeito de rumores de que o festival não ocorreria justamente em decorrência da atual situação caótica do Chile, o festival começou suas atividades na data marcada, 16 de fevereiro, mesmo tendo como pano de fundo atos de violência sistemáticos, que consistiram em automóveis incediados, quase duas dezenas de estabelecimentos comerciais destruídos e saqueados, e inclusive o hotel onde estavam hospedados a maioria dos músicos, artistas, jornalistas e produtores vinculados ao evento sofreu ataques de vândalos oportunistas, que certamente tiraram proveito da situação para roubar produtos de valor para ganho pessoal.   

Eventualmente, centenas de manifestantes decidiram invadir a área onde estava sendo realizado o evento, e a infração invariavelmente levou os invasores a um confronto com a polícia. Na praça central da cidade, havia uma outra aglomeração de manifestantes, que invadiram uma concessionária de veículos, destruindo-a completamente; os malfeitores chegaram a empurrar um veículo do segundo andar do edifício. O prejuízo material da cidade turística até o momento é incalculável.  

Infelizmente, é impossível prever até quando este dramática situação caracterizada por turbulências políticas e convulsões sociais irá perdurar. Talvez se prolongue por bastante tempo, pois onde há atuação sistemática da esquerda, sempre haverá o caos. O Chile não sairá da situação em que se encontra com facilidade, mas a julgar pelo seu histórico de tenacidade frente a dificuldades, existe uma grande possibilidade desta próspera nação andina sair mais fortalecida deste momento de crise do que nunca. 

Evidentemente, jamais podemos subestimar o potencial destrutivo da esquerda, assim como não podemos negligenciar a dura realidade, sendo ofuscados por doses irrealistas de otimismo. Combater a esquerda é uma questão de sobrevivência, não importa o país. Quando a esquerda está no poder, o caos, a destruição, o despotismo e a tirania tornam-se as normas vigentes. A América Latina — cada país de acordo com as suas circunstâncias — atualmente luta arduamente para escorraçar esta praga política que ameaça o seu futuro. A vitória só virá com muita persistência e determinação. Achar que a esquerda não pode voltar ao poder é um grave equívoco, visto que seus principais atores jamais dormem no ponto. A verdade é que se a luta não for constante, a derrota será certa.  


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