Seymour Glass

Colunista
Professor de filosofia que pretende, de alguma forma, oferecer lucidez e inspiração à realidade caótica da qual estamos participando. Colabora com o jornal Painel DN em sua coluna ”A Graça na desgraça”, espaço reservado para descrever e demonstrar os dilemas do espírito do século XXI, tratando dos valores e princípios que conduzem o nosso modo de ser, envolvendo direta ou indiretamente a estética, a ética, a religião, a filosofia.

A esperança dos homens ocos

Dentro de um universo completamente afastado de sentidos superiores, a única salvação se estabelece sobre o prazer e a euforia. É assim que os profissionais do entusiasmo surgem. Entusiasmo significa uma efusão de emoções que leva o sujeito a sentir a presença de Deus. Neste caso, Deus é reduzido a uma vibração constante que cria uma esperança de que a vida pode (ou tem de) ser melhor. Como se o sujeito angustiado, cheio de problemas, tivesse total capacidade de adquirir esse entusiasmo por meio de um maior desempenho em relação aos problemas pelos quais esteja passando. A esse profeta, capaz de despertar a esperança nesses homens ocos, damos o nome de Coach

Portanto, não seria exagerado afirmar que o Coach é o profeta do vazio. A última redenção, ou pelo menos a tentativa de redenção, daquele que não possui mais nenhuma referência. É aquilo que Richard M. Weaver (2012) denominou de abismalidade. O niilista não é aquele que, diante de um penhasco, sugere o salto, mas aquele que diz para pular, pois assim há mais liberdade. O Coach se coloca, na maioria das vezes, como um bastião da liberdade. E não é coincidência que os livros de auto-ajuda sempre fazem referência a isso. “A sutil arte de ligar o foda-se” que o diga. Para que ter obrigação ou mesmo se preocupar com coisas pequenas — como se a vida fosse feita somente de atos heróicos — sendo que você pode ligar o foda-se e viver livremente?! 

Em um mundo repleto de grilhões, é persuasivo dizer que a liberdade é poder fazer aquilo que deseja. O problema é que a liberdade está mais próxima dos deveres que dos direitos. Mas o Coach pouco se importa com os deveres. Afinal de contas, o seu público quer somente escutar o “sim, você pode!” (Yes we can!).  Numa sociedade assim, como escreveu Byung Chul Han (2019, p. 119), “nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox. Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer”. Todos estão dando socos no ar, todos estão pulando e gritando que são fodas, todos estão em plena satisfação momentânea de que é um pequeno deus, enquanto que, na verdade, são “fôrma sem forma, sombra sem cor,/força paralisada, gesto sem vigor” (ELIOT, 2004, p. 177). 

Eu disse que o Coach é a (tentativa de) redenção dos homens ocos justamente pelo fato de toda carga de soluções para problemas psicológicos, existenciais ou espirituais ser colocada sobre os ombros dos seus pacientes. Tudo depende deles. O esforço próprio. E as vitórias não possuem nenhum sentido superior, de libertação de um mal ou mesmo de uma compreensão mais ampla, que faz com que as pessoas se tornem parte do drama da história humana (HUGHES, 2019). A vida privada, com suas vitórias privadas, adquiriram maior importância. Talvez seja esse um dos motivos de o Coach só piorar o quadro das diversas síndromes psíquicas.  Afinal de contas, o problema do sofrimento nunca foi o sofrimento propriamente dito, mas o sofrimento sem sentido. E com mais ou menos dia, o seu paciente há de perceber que suas vitórias são vazias e, até mesmo, sem sentido. Os seguidores do Coach são como a atriz Michelle Williams, que é grata ao aborto, visto que, se tivesse o filho, não teria tido uma carreira bem sucedida. Pois ligar o foda-se, se tornar rico, se sentir superior, vender mais etc., também não são formas de ter uma carreira bem sucedida?


REFERÊNCIAS

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2019.

HUGHES, Glenn. Transcendência e história: a busca por ultimidade das sociedades antigas à pós-modernidade. Curitiba: Livraria Danúbio, 2019. 

WEAVER, Richard M. As ideias têm consequências. São Paulo: É Realizações, 2012. 

ELIOT. T. S. Poesia (Obra Completa). São Paulo: Arx, 2004.

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